Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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O mais, o menos, o nem uma coisa nem outra

26/06/2017 13:41

Dad Squarisi

Marcelo é arquiteto. Além de linhas e formas, preocupa-se com a língua. Não abre mão do texto nota 10 nem a pedido dos senhores do Olimpo. O perfeccionismo não se restringe a ele. Estende-se à equipe. Outro dia, a turma dava o toque final a uma proposta. Pintou, então, uma dúvida. Que sinal usar — vírgula, travessão ou parêntese? Eis o quebra-cabeça:


Brasília, a capital do Brasil, sofre os efeitos da seca.
Brasília — a capital do Brasil — sofre os efeitos da seca.
Brasília (a capital do Brasil) sofre os efeitos da seca.

E daí?

As três opções estão certinhas. Mas há diferenças. Quais? Sobraram palpites. Faltaram certezas. Pra quem sabe ler, ponto é letra. A recíproca é verdadeira. Quem sabe tirar partido das manhas da língua homenageia o leitor. Dá-lhe oportunidade de ir além de orações e períodos burocraticamente corretos. Desvenda-lhe o universo das nuanças.

Vírgula, travessão, parêntese & cia. vieram ao mundo por necessidade da expressão. Sem os recursos da língua falada, que também fala com o tom da voz, os silêncios, a gesticulação, as caras e bocas, a escrita busca compensações. Além da pausa, recorre a outros meios. Eles dão recados.

A neutralidade

Nem frio nem quente? Então fique com o morninho. A discreta vírgula é o melhor representante dos que querem agradar a gregos e troianos. Neutros, eles ficam em cima do muro e, claro, não se comprometem. Veja:

Redigir, na definição do Aurélio, é escrever com ordem e método.
Michel Temer, presidente do Brasil, esteve na Rússia.
Cármen Lúcia, presidente do STF, nasceu em Minas.

O realce

Você joga no time dos fãs de plumas e paetês? Então adora foguetório. Adora, também, o travessão. O traço nasceu pra brilhar. Generoso, realça tudo que o acompanha:

Redigir — na definição do Aurélio — é escrever com ordem e método.
Michel Temer — presidente do Brasil — esteve na Rússia.
Cármen Lúcia — presidente do STF — nasceu em Minas.

A desqualificação

Quer desqualificar? Use parênteses. Com eles, você dá um recado: a palavra, expressão ou oração neles contida é secundária, acessória. Entrou ali de carona. Não faz falta:

Redigir (na definição do Aurélio) é escrever com ordem e método.
Michel Temer (presidente do Brasil) esteve na Rússia.
Cármen Lúcia (presidente do STF) nasceu em Minas.

Sem inocência

Seja esperto. Não há escrita inocente. Ao escolher este ou aquele sinal, você dá recados. Ter consciência do poder de vírgulas, parênteses e travessões tem duas vantagens. Uma: ajuda a escrever. A outra: ajuda a ler.

Casamento manhoso

Travessão e vírgula? O casamento dos dois é raro como viúvo na praça. Mas volta e meia tem vez. Quando? Preste atenção aos parezinhos:

Brasília, a capital do Brasil, tem 2,5 milhões de habitantes.
Brasília — a capital do Brasil — tem 2,5 milhões de habitantes.
No caso, os travessões substituem duas vírgulas. As núpcias não têm nenhuma chance.

***


Depois da vitória do afilhado com mais de 50% dos votos, o padrinho se sentiu forte como Tarzã.
Depois da vitória do afilhado — com mais de 50% dos votos —, o padrinho se sentiu forte como Tarzã.
Quando saiu de casa lá pela meia-noite, deixou a família reunida.
Quando saiu de casa — lá pela meia noite —, deixou a família reunida.

Que manha, hein? O travessão coincide com uma (uma só) vírgula. Daí o casamento raro.

Leitor pergunta

Apesar de usada e abusada, a palavra blitz me enche de dúvidas. Não sei ao certo o plural da alemã. Pode me ajudar?
Serena Gonçalves, Bela Vista

Nem os dicionários se entendem. O Aurélio diz que é blitze. O Houaiss, blitzen. E daí? A tendência é aportuguesar a flexão. Como nariz e rapaz, blitz ganha es. Blitzes é a forma adotada por boa parte de jornais e revistas.

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