Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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É ilação, senhores?

06/07/2017 14:02

Dad Squarisi

A palavra do momento? É ilação. Quem a trouxe ao estrelato foi o presidente da República. Diante de câmeras e microfones, Sua Excelência disse que a denúncia contra ele foi baseada em ilação. Em bom português: em inferência, dedução. Sem provas, o procurador Rodrigo Janot concluiu que a montanha de dinheiro carregada em mala pelo assessor do Planalto seria destinada a Michel Temer. Temer nega. E daí?


Três enunciados

A língua tem mais manhas do que imagina nossa vã filosofia. Enunciados vão além da combinação de palavras. Eles jogam em três times. Um deles: fato. Outro: inferência. O último: julgamento.

Fato

O dito ou o escrito pode ser verificado? Pode ser classificado de verdadeiro ou falso? É fato. É fato que o procurador apresentou denúncia contra o presidente. Quem duvida pode ir ao STF e comprovar o ato. É fato que Raquel Dodge é a primeira mulher a chefiar o Ministério Público Federal. Quem não acredita tem a possibilidade de consultar a lista dos chefões da Procuradoria Geral da República. É fato que o Brasil chegou aos 200 milhões de habitantes. O censo do IBGE atesta a declaração.

Inferência

Ninguém vive só de fatos. Somos inteligentes, temos informações e podemos ir além. Em bom português: fazemos ilações, inferimos. Maria faltou à aula de sexta. Por quê? Não sei, mas tento explicar. Imagino que ela tenha ficado sem transporte por causa da greve. É inferência. Pode ser. Pode não ser. Nada impede que Maria esteja doente. Ou tenha caído na tentação de faltar ao compromisso pra curtir o frio debaixo das cobertas.

Julgamento

Todos têm direito de emitir opinião. Ou julgamentos. Mas precisam ter clareza: opinião não é fato. Dizer que o amarelo é a cor mais bonita que existe? Que o Corinthians joga o melhor futebol do Brasil? Que a roupa de inverno torna as pessoas elegantes? É opinião. A gente concorda ou não. Mas respeita.

Leitor pergunta

Eis o drama de quem escreve ofícios, memorandos e requerimentos. Volta e meia, precisa empregar em anexo ou anexo. Cheias de manhas, essas palavrinhas ora aparecem flexionadas, ora não. Ora vêm no início da oração, ora perdidas no meio ou no fim. Ora com vírgula, ora sem vírgula. Como lidar com elas?
Carlos Alexandre, Itabira

Em anexo é locução adverbial. Equivale a anexamente. Invariável, não tem feminino, masculino, singular ou plural. Apresenta-se sempre com a mesma cara: Em anexo, encaminho os documentos. Em anexo, encaminho a correspondência.

Sempre com vírgula? Não. A vírgula depende da colocação do termo na frase. Em anexo tem o lugar dele. É no fim da oração. Se estiver lá, nada de vírgula: Encaminho os documentos em anexo

Como criança arteira, em anexo vive mudando de lugar. Ora aparece no começo da oração, ora no meio. Deslocado, vírgula nele: Em anexo, encaminho os documentos solicitados. Encaminho, em anexo, os documentos solicitados.

Anexo é outra história. Adjetivo, flexiona-se. Concorda com o substantivo a que se refere: Anexa, encaminho a carta. Anexas, encaminho as cartas. Anexo, encaminho o ofício. Anexos, encaminho os ofícios.

E a pontuação? Se anexo vem antes do objeto, não duvide. É vez da vírgula: Anexa, encaminho a carta. Encaminho, anexa, a carta.

Na ordem direta, a história muda de enredo. Fica assim: Encaminho a carta anexa.

Reparou? A frase é ambígua. Parece que anexa é qualidade permanente da carta. Na verdade, o recado é este: encaminho a carta que está anexa. A carta não é anexa. Está anexa. A clareza é a maior qualidade do estilo. Anexa, na ordem direta, compromete-a. Dá duplo sentido à frase. Xô!

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