Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Xô, possessivo

02/08/2017 11:55

Dad Squarisi

Tudo passa. As férias também dizem adeus. Depois da folga, é hora de arregaçar as mangas e voltar às atividades. Que tal retornar com mais leveza? Um dos caminhos é livrar-se de vícios que funcionam como pedras no caminho. Há muitos, incontáveis como as estrelas do céu. Entre eles, palavras inúteis ou modismos que contrariam o leitor. Fiquemos com três.


A frase clara

A frase tem três virtudes. A primeira: clareza. A segunda: clareza. A terceira: clareza. Montaigne deu essa lição há 400 anos. Até hoje as coisas não mudaram. A clareza ainda é a maior qualidade do texto. Por isso, todos que escrevem para ser entendidos não poupam esforços para chegar lá.

Xô, possessivo

Há truques que facilitam a tarefa. Um deles: livrar-se de palavras que tornam o enunciado obeso. Elas parecem inofensivas. Mas causam estragos. É o caso do pronome possessivo:

*No seu pronunciamento, o presidente frisou a importância das reformas.

Reparou? O seu não tem função. Sobra. Pau nele:

*No pronunciamento, o presidente frisou a importância das reformas.


Mais um caso

*No acidente, quebrou a sua perna direita, fraturou os seus dedos da mão esquerda, arranhou o seu rosto.

Cruz-credo! Rua! Antes das partes do corpo, o possessivo não tem vez. Sem ele, a frase respira aliviada:

*No acidente, quebrou a perna direita, fraturou os dedos da mão esquerda, arranhou o rosto.

Outro

*Temer garantiu aos parlamentares que o seu esforço levaria à aprovação da reforma da Previdência Social.

Esforço de quem? Do presidente? Dos deputados? Melhor jogar luz sobre o enunciado:

*Temer garantiu aos parlamentares que o esforço deles levaria à aprovação da Reforma da Previdência.

Modismos

É um mistério. Modismos chegam tímidos. Repetem-se aqui e ali. De repente, não mais que de repente, viram praga. É o caso do sufixo -izar. Outro dia, alguém disse sem corar: “É preciso perdoalizar os inimigos”. Valha-nos, Deus! O que fazer? Boa parte dos feiosos dá ideia de movimento. Pode ser substituída por verbos mais precisos, familiares e pra lá de simpáticos.


Eis exemplos:

agilizar (apressar), desincompatibilizar-se (deixar o cargo), equalizar (igualar), fidelizar (conquistar), independentizar (liberar), integralizar (completar), oportunizar (dar oportunidade), otimizar(melhorar), publicizar (divulgar, publicar).

Etc. Etc. Etc.

Redundâncias

O bem mais precioso em tempos de avalanche de mensagens eletrônicas? É o tempo. Minutos são luxos dos quais ninguém quer abrir mão. Que tal dar uma ajudinha? Mande redundâncias passear bem longe. Não é tarefa fácil. Elas estão na moda e passam despercebidas. Quer ver?
 
Sociedade como um todo? É sociedade.

Desfecho final? Todo desfecho é final. Basta desfecho.

Empréstimo provisório? Só pode ser. Se fosse definitivo, não seria empréstimo. Seria doação (ou presente).

Sintomas indicativos? Todos são. Sintomas dá o recado.

Ter futuro pela frente? Só pode ser. Ninguém tem futuro por trás.

Fazer planos para o futuro? Claro. O passado já era.

Milagre improvável? Céuuuuuuus! É milagre. O adjetivo sobra.

Sorriso nos lábios? Onde mais? Se for nos olhos, é figura de linguagem. Aí, sim, tem de informar. Mas a regra é nos lábios.

Leitor pergunta

Regência é calo no pé. Dúvidas pintam a cada momento. A de agora se refere ao verbo constituir. Ele é direto ou pede a preposição em? Vejo escrito das duas formas. Daí a confusão.
Dalton Siqueira, Porto Alegre

O verbo constituir é transitivo direto. Constituir-se também. Ambos têm horror à preposição: Acordar cedo constitui (constitui-se) problema para mim. O Enem constitui (ou constitui-se) preocupação constante de quem quer entrar na universidade.

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