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Historinha de amor

%u201CNas palavras e nas modas, observe a mesma regra: sendo novas ou antigas demais, são igualmente grotescas%u201D, Pope

09/08/2017 11:24

Dad Squarisi

Beatriz morre de preguiça de escrever. Quando tem de dar um recado, não pensa duas vezes. Telefona. Adora ouvir a voz dos amigos no outro lado da linha. Mas as ligações ficaram meio fora de moda. As mensagens eletrônicas pediram passagem. Sem saída, a alternativa da moça é uma só — digitar.


Numa dessas, Beatriz encontrou o grande amor. Bonito, charmoso e delicado, o rapaz tem uma mania. Adora mandar zaps. Ela os responde com cuidado. Sabe que vão longe os tempos em que o amor era cego. Hoje enxerga com lentes de aumento. Uma letra posta fora do lugar mata o sonho mais longamente acalentado.

Outro dia, o gatão lhe mandou uma mensagem. Nele, o convite para um cineminha. Ela respondeu-lhe que não estava… ops! A fim ou afim? Mudou a frase. Mas a dúvida ficou. Passado o sufoco, consultou a gramática. Lá estava a resposta.

Afim

Afim não se escreve coladinha por acaso. É que os iguais se atraem. Afim significa que tem afinidade, semelhança: Mãe e pai têm ideias afins. História e literatura são matérias afins. O espanhol é língua afim ao português. Cunhado é parente afim.

A fim de

A fim de, desse jeito, um pedaço cá e outro lá, faz parte da locução a fim de. Quer dizer para: Saiu cedo a fim de (para) ir ao cinema. Mandou e-mail a fim de agendar consulta na Receita Federal. Tirou férias a fim de (para) estudar para o concurso.

A fim

Na linguagem da brotolândia, a fim ganha sentido coloquial. Vira com vontade de, como se vê no diálogo de Rafael e João Marcelo:

— Rafael, vamos bater uma bolinha hoje?
— Não estou a fim. Que tal uma azarada no shopping?
— Agora, quem não está a fim sou eu. Fica pra próxima.

Viu? O bate-papo dos garotos tem tudo a ver com a dúvida da Beatriz. Eles não estavam a fim. Nem ela. PT saudação.

Surpresa para ele

Dia dos Pais vem aí. A filharada prepara uma surpresa para o velho. Nada de presentes. A proposta é uma saidinha. Um bilhete daria o recado ao homenageado. Mas, na hora de escrevê-lo, pintou a dúvida. J ou g? Eis o período: “Viajemos e façamos boa viagem”. Como já tinham estudado o assunto, foram aos livros.

Lá estava: viajar é fiel à família. Como o infinitivo se escreve com j, a letrinha se mantém em todas as pessoas, tempos e modos: eu viajo, ele viaja, nós viajamos, eles viajam; que eu viaje, ele viaje, nós viajemos, eles viajem.

Compaixão

Apesar da lógica, a forma viajem (que eles viajem) sofre agressões impiedosas. Muitos, mas muitos mesmo, escrevem-na com g. Tropeçam. Viagem é substantivo. O nome não tem nada a ver com o verbo. Um pertence a uma classe. O outro, a outra: agência de viagem, viagem ao Rio, preparativos para a viagem.

Macete

Na dúvida, banque o esperto. Recorra a macete antigo como o rascunho da Bíblia. Ponha a palavra no plural. Se ela joga na equipe de homens e jovens, não duvide. Você está às voltas com o substantivo: Eles querem pôr o pé na estrada? Que ponham. Viajem e façam boa viagem. (Viajem e façam boas viagens.) Amém!

Leitor pergunta

Nomes próprios viram comuns?
Sérgio Bastos, Brazlândia

A língua joga no time dos mutantes. Instrumento de comunicação das pessoas, muda conforme mudam os tempos e os falantes. Concordâncias, regências, colocações, significados trocam o passo conforme a música. A grafia não fica atrás. Maiúsculas e minúsculas servem de exemplo.

Os nomes próprios se escrevem com inicial grandona. É o caso de João, Maria, Pará, Colônia, Brasil. Às vezes, porém, eles entram na composição de substantivos comuns. O resultado é um só. Tornam-se vira-latas: joão-de-barro, castanha-do-pará, água-de-colônia, pau-brasil, banho-maria.

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