Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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A duplinha a + a

04/09/2017 10:00

Dad Squarisi

Recado
“Uma mentira piedosa às vezes pode ser meritória.”
Wolfang Grüen

Terror à solta

Aqui são balas perdidas. Na Finlândia, facadas. Na Espanha, quatro rodas. No Iraque, homens-bomba. O terror à solta virou notícia nos jornais, no rádio, na tevê, na internet. Ao contar as histórias, dois fatos sobressaem. Um: a certeza da insegurança geral. Nem bebê na barriga da mãe está protegido. O outro: a dúvida sobre o emprego da crase.

Morto à bala? Morto a bala? Com crase ou sem crase? Alguns escreveram à bala. Outros, a bala. Qual a forma correta? A resposta será dada à prestação. Ou seria a prestação? Em bom português: a resposta será dada por partes.

A duplinha a + a

A crase indica o casamento de dois aa:
preposição a artigo a: Dirigiu-se à piscina.
O primeiro a é exigido pelo verbo dirigir-se (a gente se dirige a algum lugar). O segundo é o artigo pedido pelo substantivo cidade (a cidade). Pronto: a a = à.

Tira-teima

Na dúvida, basta substituir o substantivo feminino por um masculino. Não precisa ser sinônimo nem aparentado. A única exigência é que seja do mesmo número (singular ou plural). Se na troca aparecer ao, sinal de crase. Se não, nada feito:

• Foi à cidade. Foi ao clube.
• Refere-se a pessoas estranhas. Refere-se a trabalhos estranhos.
• Compareceu a duas reuniões. Compareceu a dois encontros.
• Compareceu às duas reuniões. Compareceu aos dois encontros.

Falsa crase

Voltemos à dúvida inicial. Morto à bala? Morto a bala? Apresentado à prestação? Apresentado a prestação?

Nem sempre — e aí reside o xis da dúvida — o acento resulta de crase (a a). Às vezes, por questão de clareza, apela-se para a falsa crase. Usa-se à mesmo sem a contração dos dois aa. Vender à vista, por exemplo. Aí, não há crase. Quer ver? Vamos ao masculino: vender a prazo.

Por que o à? Para evitar mal-entendidos. Sem o acento, poder-se-ia entender que se quer vender a vista (o olho). O mesmo ocorre com bater à máquina. Sem a crase, parece que se deu pancada na máquina. Não é bem isso, convenhamos.

Casos

Em que casos o duplo sentido ocorre? Geralmente nas locuções que indicam meio e instrumento: Matou-o à bala. Feriram-se à faca. Está à venda. Escrever à tinta. Feito à mão. Enxotar à pedrada. Fechar à chave. Matar o inimigo à fome. Entrar à força. Andar à toa na vida.
O acento é obrigatório? Ou só se deve recorrer a ele em caso de ambiguidade? Sem risco de duas interpretações, fica a gosto do freguês. Mas há forte preferência pela falsa crase. Use-a. Você acertará sempre.

Leitor pergunta

“À zero hora tem crase?”
Carlos Pereira, BH

Tem. É uma locução adverbial formada de palavra feminina. Joga no time de às claras, às escuras, às apalpadelas, às 2h, à meia-noite.
Quer um macete? Na dúvida, substitua hora por meio-dia. Se na troca der ao, não duvide. Ponha o grampinho: O avião decola à zero hora (ao meio-dia). A aula começa às 13h (ao meio-dia). Trabalho das 8h às 12h (das 8h ao meio-dia).
*
A locução eis que indica causa? Ou é modismo?
Serena Cruz, Erechim

Eis que dá ideia de surpresa ou imprevisto: Quando menos se esperava, eis que Paul McCartney voltou ao palco. Eis que surge finalmente um ator à altura do papel. Quando menos se esperava, eis que pintou confusão.
Não use eis que na acepção de causa. Em vez da duplinha, prefira uma vez que ou porque. Assim: Ele deve passar no vestibular uma vez que estuda muito (não eis que). O candidato deve ser selecionado porque sobressaiu no teste (não eis que). O recurso vai ser rejeitado uma vez que não tem fundamento jurídico. Eles merecem melhores salários porque trabalham com dedicação (não eis que). O imóvel não pode ser vendido porque está hipotecado (não eis que).



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