Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Nota fúnebre

05/09/2017 10:35

Dad Squarisi

Recado
“Reescrevi 30 vezes o último parágrafo de Adeus às  
Armas antes de me sentir satisfeito.”
Ernest Hemingway

Nota fúnebre

Machado de Assis, Eça de Queirós, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Saramago, João Ubaldo Ribeiro, Millôr Fernandes (in memoriam), Marina Colassanti, Lígia Fagundes Telles, Luiz Fernando Verissimo, Roberto Pompeu de Toledo, Elio Gaspari, Arnaldo Niskier, eu, você e todos os cultores da boa linguagem cumprem o doloroso dever de comunicar o falecimento do futuro do subjuntivo.

Vítima de abandono e maus-tratos, ele deixa a família verbal enlutada. Os amigos se unem nesse ato de piedade cultural e protestam contra tão prematura e insubstituível partida. Não há escapatória. Os jornais esnobam essa forma verbal há algum tempo. A TV provoca um arrepio depois do outro. Os charmosos apresentadores dizem sem corar “quando ele pôr, se ele ver, assim que ele reter”. Os produzidos personagens das novelas não ficam atrás. Erram todas. O futuro do subjuntivo está lá, confundido com o infinitivo.  

Paternidade

“Afinal, o que aconteceu?”, perguntam os amigos. “Uma grande confusão”, reconhecem. O futuro morreu da insidiosa moléstia chamada semelhança.

O azar desse tempo, que, frise-se, sempre cumpriu suas obrigações a tempo e a hora, foi um só: ser parecido com o infinitivo (a forma que dá nome ao verbo: cantar, vender, partir). Os simplistas acham que ele é filho do infinitivo (quando eu chegar, você chegar, nós chegarmos, eles chegarem).

Mas o pai dele é outro. Não muito conhecido, mas o exame do DNA é categórico. Está  registrado em todas as gramáticas. É o pretérito perfeito do indicativo. Mais precisamente: a 3ª pessoa do plural. Sem o -am final.  

Dúvidas

Quando eu pôr ou puser? Se eu vir ou ver? Se eu vier ou vir? Assim que ele reter ou retiver? Dúvidas. Dúvidas. Dúvidas.

Qual a saída? Só há uma. Recorrer ao pai. Conjugar o verbo no pretérito perfeito, velho conhecido de todos. Depois, fixar-se só na 3ª pessoa do plural. Sem o -am final, temos o filho legítimo. Quando ele pôr ou puser?

Pretérito perfeito: eu pus, ele pôs, nós pusemos, eles puser(am).
Futuro do subjuntivo: quando eu puser, você puser, nós pusermos, vocês puserem.

Sem exceção

Não há exceção. Que o digam os maltratados.

Se eu vir ou vier? O pai: eu vim, você veio, nós viemos, eles vier(am).
O filho: se eu vier, ele vier, nós viermos, eles vierem.
*
Assim que nós virmos ou vermos? O primitivo: eu vi, ele viu, nós vimos, eles vir(am).
O derivado: assim que eu vir, ele vir, nós virmos, eles virem.
*
Se eu reter ou retiver? Sem preguiça, conjuguemos o pretérito perfeito: eu retive, ele reteve, nós retivemos, eles retiver(am).
O futuro do subjuntivo: se eu retiver, ele retiver, nós retivermos, eles retiverem.

Protesto

Sabe quem está esperneando? É o trazer. O coitado luta com todas as forças para não descer à sepultura. Não quer ser enterrado na vala comum dos deserdados. “Socorro!”, grita. “Trarei muita sorte a quem me salvar”. Inútil. Traga o que trouxer, ninguém o escuta. Descanse em paz.

Leitor pergunta

Outro dia, ouvi no rádio um entrevistado dizer: “Se ele manter a empresa aqui, terei vantagens”. O emprego do verbo está correto?
Magda Serena, Porto Alegre

Não. O verbo manter é derivado de ter. Conjuga-se como ele. Ninguém diz “se ele ter a empresa aqui”. O que se diz é “se ele tiver”. Logo, se ele mantiver. Trata-se do futuro do subjuntivo, filhote do pretérito perfeito:

Pretérito perfeito: mantive, manteve, mantivemos mantiver(am)
Futuro do subjuntivo: se eu mantiver, ele mantiver, nós mantivermos, eles mantiverem

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