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O verbo complacente

06/09/2017 10:00

Dad Squarisi

Recado
“Gosto que me leiam e saibam o que acho das coisas. É uma forma de existir.”
Paulo Francis

O verbo complacente

É ou são? Cuidado. Trata-se do verbo ser. Com ele, ligue as antenas. O verbinho é complacente. Ora aceita uma forma, ora outra. Ora as duas. Especial, recebe tratamento diferenciado. Na concordância, a gramática reserva-lhe capítulo à parte.

Hoje é 20 de agosto? Ou são 20 de agosto? Cem reais é muito? Ou são muito? É quase duas horas? Ou são quase duas horas? Dúvidas. Muitas dúvidas.

Jogo duplo

O verbo ser tem a cintura mais flexível do português. Nunca toma posição firme. Ora acha o sujeito simpático. Vai pro lado dele. Ora o predicativo o atrai mais. Eterno infiel, passa para o lado de lá.

*Tudo é flores ou tudo são flores?

O verbo olha para as flores. Acha-as simpáticas, coloridas e cheirosas. Decide: Tudo são flores. Em outras horas, lembra-se do que aprendeu na escola (o verbo concorda com o sujeito). Muda de lado: Tudo é flores.

Qual a forma correta? Ambas. Com o ser, quase sempre as duas construções estão certas. Há apenas três casos em que ele é durão, inflexível.

Um

*É uma hora. São três horas.

Na indicação de horas, o verbo só tem olhos para o predicativo. Concorda com o número que diz as horas: É meio-dia e meia. Seria uma hora da tarde. Eram umas 11 horas da noite.

Cuidado. Às vezes o número é antecedido por expressões que indicam aproximações. Não se confunda. O verbo continua o mesmo: Seriam quase duas horas quando ele chegou. São cerca de seis horas de voo. Eram mais ou menos três horas quando o presidente fez o anúncio.

Dois

*Um é pouco, dois é bom, três é demais.

Deu-se conta? As expressões de quantidade, medida, peso, valor, tempo — como é muito, é pouco, é suficiente, é caro, é barato — são invariáveis. Pretensiosas, não ligam para o sujeito. Com elas, só o singular.

Veja exemplos: Dois mil reais é muito. Vinte quilos é suficiente. Dois minutos é muito tempo para quem está com dor de dente. Vinte reais é menos do que o produto vale.

Três

*Eu é que digo. Nós é que sabemos.  

A expressão é que recebe o nome de expletiva. Significa pode cair fora. Mantém-se invariável: As rosas (é que) são belas. Nós (é que) somos patriotas.

É isso.

Leitor pergunta

Ortografia é calo no pé. Letras diferentes soam iguais. Como Deus é generoso, põe o dicionário às ordens para tirar dúvidas. Mas nem sempre ele está por certo. Outro dia, fiquei confuso com a palavra censo. Com s ou z? Sem o Aurélio por perto, recorro à coluna.
Carlos Alberto, Guaíba

Dizem as más línguas que a língua é um sistema de ciladas. Ao menor descuido, pega a gente pelo pé. Citam muitos exemplos. Entre eles, censo e senso. A pronúncia é a mesma. Mas o significado não tem parentesco nem remoto. Guarde isto:
Censo, com c, dá nome ao conjunto dos dados estatísticos da população de uma cidade, estado ou país. Daí censo demográfico.
Senso, com s, quer dizer entendimento. Daí senso de responsabilidade, senso comum, bom senso, senso moral.
Na dúvida, tenha senso. Com s. Faça substituições. Você verá que censo, com c, tem poucas aplicações.

Não gosto de usar a gente. Mas, de vez em quando, apelo para a duplinha. Pinta, então, dúvida quanto à concordância. Pode me ajudar?
Cíntia Bonfim, Bela Vista

A forma de tratamento a gente, coloquial, equivale a nós. Leva o verbo sempre para a terceira pessoa do singular (a gente faz, a gente trabalha). O adjetivo concorda com o sujeito: A gente estava cansado (homem). A gente estava cansada (mulher).

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