Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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As brasileiras gringas

%u201CA gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda%u201D, Luiz Fernando Verissimo

13/09/2017 09:35

Dad Squarisi

O assunto da semana? Ele mesmo: o anúncio de privatização da Eletrobras. Os mercados se assanharam. A Bolsa subiu. Os brasileiros acenderam a esperança de fim dos apagões e do aumento das tarifas. Mas, acima de tudo, pintou questão pra lá de debatida. Por que a estatal dispensa o acento? Oxítona terminada em a (seguida ou não de s) deveria exibir um grampinho como está, estás, sofá, sofás, gambá, gambás.


História semelhante se passou com a Petrobras. Ela nasceu obediente às regras gramaticais. Mas cresceu e quis aparecer. Como se tornou internacional, precisava se aproximar do inglês. A língua de Shakespeare não perde tempo com agudos, graves ou circunflexos. Eletrobras, Radiobras & cia. foram atrás. Adeus, grampinho!

Já era

Outras estatais entraram no pacote das privatizações. Entre elas, a Casa da Moeda. O fato provocou piadas. José Simão disse que, ao trocar de mãos, os bichos que figuram nas notas de reais serão substituídos pelo javali. Como? Ele explicou:

— Já vali, mas agora não... ops! Valo ou valho mais?

O verbo valer entrou em cartaz. Irregular, o dissílabo trapaceia na 1ª pessoa do singular do presente do indicativo. Como o presente do subjuntivo deriva dela, segue a mudança. Veja:

Presente do indicativo: eu valho, ele vale, nós valemos, eles valem.
Presente do subjuntivo: que eu valha, ele valha, nós valhamos, eles valham.

No mais, o danadinho é regular. Deixa o h pra lá: vali, valeu, valemos, valeram; valia, valia, valíamos, valiam; valerei, valerá, valeremos, valerão. E por aí vai.

A frase do José Simão fica assim:

— Já vali, não valho mais.


Questão de família

Privatizar se escreve com z. Analisar com s. Por quê? Porque o sufixo -isar não existe. Mas as quatro letrinhas aparecem firmes e fortes em paralisar, analisar, pesquisar. Já em civilizar, organizar, catequizar & cia. o mesmo som se grafa com z. Como explicar a aparente contradição? É simples. A chave da resposta se encontra no nome que dá origem ao verbo.

O senhor S

Vale o exemplo de analisar. Ele é derivado de análise. Ora, se análise tem s no radical, nada mais justo que a letrinha se mantenha no verbo. É o caso de bis (bisar), catálise (catalisar), pesquisa (pesquisar), análise (analisar), liso (alisar), improviso (improvisar). Reparou? O is faz parte da palavra primitiva. O verbo se formou com o acréscimo do sufixo -ar.

A família das ilustres criaturas rezam pela mesma cartilha: análise, analisar, analisado, analisador; paralisia, paralisar, paralisante, paralisado, paralisação; pesquisa, pesquisar, pesquisador, pesquisado; catálise, catalisador, catalisante, catalisado; improviso, improvisar, improvisação, improvisado, improvisador.

E por aí vai.

O senhor Z

Como explicar a presença do -izar em amenizar, capitalizar, humanizar, simbolizar? Os coitados não têm o s onde o -ar possa se agarrar. Precisam de uma ponte. Construíram o -iz, que se mantém nos derivados: ameno (amenizar, amenização), capital (capitalizar, capitalização, capitalizado), humano (humanizar, humanização, desumanizado), canal (canalizar, canalizado, canalizante).

Alguns são privilegiados. Têm o z no radical. Nada mais justo que respeitar a família. É o caso de cicatriz (cicatrizar, cicatrização), deslize (deslizar), juízo (ajuizar, ajuizado), cicatriz (cicatrizar, cicatrização), raiz (enraizar, enraizado).

Moral da história

O emprego de -isar e -izar é questão de família.

Leitor pergunta

“Foi um estupro institucional”, disse Rodrigo Janot sobre a situação da Venezuela. A imagem surpreendeu. Muitos a repetiram. Ela caiu na boca do povo e nas redes sociais. Aí, não deu outra. O r mudou de lugar. Estupro virou estrupo. Fiquei confuso. Qual a pronúncia nota 10?
Carmem Galhoso, BH

Valha-nos, Deus! O r figura na última sílaba: estupro.

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