Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Plural enganador

%u201CEu escrevi porque meus filhos cresceram e eu não sabia mais para quem contar histórias%u201D, Umberto Eco

13/09/2017 09:38

Dad Squarisi

A reforma política está em debate. Deputados rimam. Falam em distritão e fundão. Mas, como ninguém se entende, continua tudo como dantes no quartel de Abrantes. Programas de partidos políticos vão ao ar em horário nobre. Com eles, volta ao cartaz um pluralzinho pra lá de especial. Uns o chamam de plural de modéstia; outros, de majestático. No fundo, no fundo, ele não passa de um enganador. É singular. Mas faz de conta que não está nem aí pro número a que se refere.


Processo

A pessoa usa nós, mas quer dizer eu. Assim, como quem não quer aparecer. Antes, o recurso era empregado por reis, papas e dignitários da Igreja. Daí o nome majestático. Depois, baixou de status. Oradores passaram a socorrer-se dele como expediente retórico. Só pra impressionar.

É o caso daquele político que, no comício na cidadezinha do interior, disse:

— Nós queremos ser bondoso e competente.

Reação

O povo se entreolhou. Pensou que o candidato fosse analfabeto de pai e mãe. Talvez fosse. Mas, ali, o homem usou o plural de modéstia. O verbo concorda com o sujeito de fachada (nós), mas o adjetivo, que não é bobo, concorda com o sujeito verdadeiro – eu. Parece erro de concordância, não? Em língua de gente sem falsidade, diríamos:

— Eu quero ser bondoso e competente (referência a uma pessoa).
— Nós queremos ser bondosos e competentes (referência a mais de uma pessoa).


Mais exemplos? Imagine estas frases na boca do hóspede do Palácio do Planalto. Elas servem como luva para a plural majestático:

— Nós somos presidente de todos os brasileiros. (Eu sou presidente de todos os brasileiros.)
— Nós somos moderno e amigo do povo. (Eu sou moderno e amigo do povo.)


Sem falsidade

Viu? O pseudomodesto fica no muro. Meio lá, meio cá. O verbo vai para o plural. Os adjetivos e substantivos não. Olho vivo! Você é estudante, concurseiro, funcionário público, profissional liberal? Deixe o plural majestático pra lá. Ele dá a impressão de erro. E a língua, como a mulher de César, não só tem de ser correta. Tem de parecer correta.

Quem é quem

Acordo firmado entre mim e o senhor? Ou entre o senhor e mim? As pessoas do discurso são três. A primeira fala (eu, nós). A segunda escuta (tu, você). A terceira serve de assunto (ele, ela).

Qual a mais importante? A primeira. Por isso o mim, pronome de primeira pessoa, tem prioridade sobre os demais: acordo firmado entre mim e o senhor, entre mim e ti, entre mim e eles.

Antigamente os professores diziam “o burrinho vai sempre na frente”. Jeito deles de ajudar na fixação da regra.

Parecidos, não sinônimos

Diferir e diferenciar são sinônimos? Não. O professor Odilon Soares Lemes explica:

Diferir significa ser diferente, distinguir-se: Minha opinião difere da sua. A tese por ele defendida difere da aceita pelo professor.

*

Diferenciar quer dizer estabelecer diferença ou perceber diferença: É a sua gentileza que diferencia você dos seus colegas. Alguns não sabem diferenciar latrocínio de roubo. Você sabe diferenciar alhos de bugalhos?

Agradeça a alguém

“Kaepernick pode ser cortado sem que o time o pague um centavo sequer”, escreveu o Correio de ontem. Bobeou com o verbo pagar. A gente paga alguma coisa a alguém: O time paga salário milionário ao jogador.

Ao substituir o a alguém pelo pronome correspondente, o lhe pede passagem. Abram-lhe alas: Kaepernick pode ser cortado sem que o time lhe pague um centavo sequer.

Leitor pergunta

Chamar atenção? Ou chamar a atenção?
Célio Siqueira, Betim

Chame a atenção de alguém. Assim, com artigo: O professor chamou a atenção dos alunos. Por favor, chame a atenção dos presentes. Não gosto que me chamem a atenção.

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