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Tempo, pra que te quero?

06/11/2017 16:05

Dad Squarisi

O tempo dá coceira. Ninguém fica indiferente a ele. Tasso, lá  por 1500, encontra-lhe uma aplicação: “Perdido está todo o tempo que em amor não se gasta”. “Tempo é dinheiro”, responde-lhe Teodore Wanke quatro séculos depois. “O que o tempo traz de experiência não vale o que leva de ilusões”, avalia Gabriel Pomeland. “És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho”, acha Caetano.


Machado de Assis não deixa por menos. “Matamos o tempo: o tempo nos enterra”, desabafa. Tinha acabado de ler o jornal. Estava à beira de um ataque epiléptico. O anúncio à sua frente dizia: “Nos domingos há missa na Igreja de São Francisco”.

A causa

Você  sabe o porquê da indignação? O tempo. Ou melhor, a indicação do tempo. Nos domingos ou aos domingos? É um rolo. Hoje, então, está pior que nos tempos machadianos.  

O tempo virou obsessão. A mãe, o pai, o chefe, o professor, o jornal, a TV, todos bombardeiam horários na nossa cabeça. Sem falar no amado, que marca jantar, cineminha, encontro.

O tiro pode sair pela culatra se a indicação dos ponteiros não estiver nos conformes. Foi o que ocorreu com Machado. Ele nunca mais foi à Igreja de São Francisco. “Quem não sabe a língua não pode traduzir a palavra de Deus”, pensou.  

A diferença

Nos domingos ou aos domingos? Aos domingos significa todos os domingos: Vou à missa aos domingos. O comércio abre aos domingos. Você trabalha aos domingos?

Os outros dias da semana não fogem à regra. Pedem a preposição a quando indicam ação que se repete: Meu plantão é às quintas-feiras (todas as quintas). Os museus fecham às segundas-feiras (todas as segundas). Vejo meus filhos às quintas-feiras.

A preposição em (no sábado, na segunda) dá o seguinte recado: o fato ocorrerá uma só vez ou de vez em quando. Nada de repetições regulares: Paulo se casa no sábado. Vi Maria no domingo. O filho deles nasceu na quarta-feira.  


A escolha

A língua é um sistema de possibilidades. Tem jeitos diferentes de dizer a mesma coisa. Você pode escolher: Vou à missa aos domingos. Vou à missa todos os domingos. Encontro Maria às segundas-feiras. Encontro Maria todas as segundas-feiras.

Não morra na praia. Para indicar ação que se repete regularmente, o pronome todo (toda) precisa estar no plural. E acompanhado do artigo os, as. “Janto fora todos os sábados” é a forma correta. Se você disser “Janto fora todo sábado”, sua mensagem será outra. Estará dizendo: “Janto fora qualquer sábado”. O recado vai pro beleléu.

Leitor pergunta

Sei que o hífen é castigo de Deus. Nem o Senhor lhe domina os mistérios. Ora, se Ele tem dúvidas, imagine eu. Tenho muitas. A mais recente: não agressão pede o tracinho?
Gerson Carlos, Olinda

Respire fundo, Gerson. A reforma ortográfica lhe deu senhora ajuda. Cassou o hífen de palavras formadas com não: não agressão, não cooperação, não ingerência.

 ***

“Não sei nada.” Correto?
 Célia Gomes, Santos

Nota 10. O português exige a dupla negativa: Não estudei nada. Não aprendi nada. Não vi nada.

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