Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

Faz e acontece

%u201CSó se escreve para provocar um amigo, conquistar uma mulher ou ganhar muito dinheiro.%u201D Ivan Lessa

21/11/2017 14:05

Dad Squarisi

As palavras, como as pessoas, têm manias. Combinam. Brigam. Fazem exigências. Armam ciladas.

Um verbo cheio de caprichos é o acontecer. Elitista, ele tem poucos empregos. E quase nenhum amigo. Mas, por capricho do destino, os colunistas sociais o adotaram. A moda se espalhou como fogo morro acima ou água morro abaixo.



O pobre virou praga. Tudo acontece. Até pessoas: Trump está acontecendo na Ásia. O casamento acontece na catedral. O show acontece às 22h. E por aí vai.

Violentado, o verbo vira a cara. Esperneia. E se vinga. Deixa mal quem abusa dele. Diz que o atrevido sofre de pobreza de vocabulário.

Bem-vindo

Para não cair na boca do povo, só há uma saída. Empregá-lo na acepção de suceder de repente.

Acontecer dá a ideia do inesperado, desconhecido: Caso acontecesse a explosão, muitas mortes poderiam ocorrer.

O verbinho de sangue azul sente-se muito bem com os pronomes indefinidos (tudo, nada, todos), demonstrativos (este, isto, esse, aquele) e o interrogativo que: Tudo acontece no feriado. Aquilo não aconteceu por acaso. O que aconteceu?


Alto lá

Não use acontecer no sentido de ser, haver, realizar-se, ocorrer, suceder, existir, verificar-se, dar-se, estar marcado para. Se você insistir, prepare-se. É briga certa. Melhor não entrar nessa. Busque saídas.

Uma delas é substituir o verbo: O show acontece (está marcado para as) às 21h. O festival aconteceu (realizou-se) no ano passado. O crime não aconteceu (ocorreu). Acontecem (ocorrem) casos de prisão de inocentes durante as batidas policiais. O vestibular está previsto para acontecer em dezembro (previsto para dezembro). Não aconteceu (houve) o rigoroso inverno.

Outra é mudar a frase: A prisão aconteceu ontem. (A polícia prendeu o ladrão ontem.) O show de Madeleine Peyroux acontece no Centro de Convenções. (Madeleine Peyroux faz show no Centro de Convenções.) A divulgação do resultado acontece logo mais. (O resultado será divulgado logo mais.) O início da prova aconteceu às 8h. (A prova iniciou-se às 8h.)

 


Moral da opereta

O que é escrito sem esforço é lido sem prazer. Xô, preguiça!

Virou moda

Doido invade igreja no Texas e sai atirando. Entre mortos e feridos, 10% da população foi atingida. Estudantes de escolas brasileiras dão tiros em salas de aula. Roubam vidas e espalham medo. Jornais noticiam os fatos. Alguns pisam a bola. Escrevem “matou à tiros”. Bobeiam. Crase antes de nome masculino? Nem a pedido de Deus: matou a tiros.

Há casos em que aparece o sinalzinho antes de palavras machinhas. É o caso de “corta o cabelo à Neymar”. Ou “não foi à Livraria Cultura, mas à José Olympio”. Olho vivo. As aparências enganam. Escondidinho, está um feminino tentanto enganar o bobo na casca do ovo. Veja: Corta o cabelo à (moda de) Neymar. Não foi à Livraria Cultura, mas à (Livraria) José Olympio.

Curiosidade

Morfeu vive no Olimpo. É deus do sono e dos sonhos. Daí a expressão “estar nos braços de Morfeu”, que significa estar dormindo. O nome dele vem do grego morfo-. Quer dizer “a forma”. Não por acaso. Chama-se assim porque tem uma missão: tomar a forma humana e aparecer aos homens durante os sonhos.

O deus cumpre a obrigação numa boa. É dono de grandes asas. Transporta-se com facilidade às extremidades da Terra. Sem ruídos. Com uma papoula, faz os mortais adormecerem.

De Morfeu originou-se a palavra morfina. Por duas razões. A primeira: o poder sedativo é feito de ópio, narcótico subtraído da papoula. A outra: além de aliviar as dores, a morfina faz dormir.


Leitor pergunta

Etc. tem ponto no final. Se coincidir com o ponto do fim da frase, devo usar os dois pontos?
Luciana Serra, Floripa

Não. Fique com um ponto só: Comprei laranja, maçã, pêssego, abacaxi etc. (A vírgula antes do etc. é facultativa. Você escolhe.)


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