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Águas de dezembro

"Por que as pessoas ficam inventando expressões estranhas ou usando palavras estrangeiras quando é muito mais fácil falar português?" Max Gehringer

06/12/2017 16:54 | Atualização: 06/12/2017 16:56

Dad Squarisi

“São as águas de março levando o verão”, canta Tom Jobim. As de novembro deveriam trazer a estação do calor, do bronzeado, dos biquínis charmosos. Mas este ano em Brasîlia e Minas vieram com mau humor. As imagens exibidas pela tevê assustam. Árvores caídas, casas destelhadas, vidros quebrados, postes no chão, ruas transformadas em rios, asfalto fantasiado de lama.


A ventania mal-acompanhada trouxe três verbos à tona. Um deles: chover. Outro: assistir. Mais um: ruir. O trio tem manhas. Algumas atingem a conjugação. Outras, a regência. Há as que batem à porta da grafia. Conhecê-las pega bem – demonstra domínio da língua e respeito pelo leitor. Não é pouco.


Chover

Chover joga no time de ventar, trovejar, nevar, amanhecer, anoitecer. Por indicarem fenômenos da natureza, eles só se conjugam na 3ª pessoa do singular: Chove sem parar. Ventou muito ontem à noite. Amanhece cedo no verão. Sempre troveja quando chove?

A língua detesta monotonia. Por isso recorre ao sentido figurado. Aí seres orgulhosos entram na vala comum. Concordam com o sujeito em pessoa e número: Choveram aplausos depois da apresentação. Os moradores trovejaram impropérios contra os ladrões. Amanheci alegre. Os turistas anoiteceram na praia.

Assistir

Socorro!, gritam os atingidos. Parentes, amigos, população e governo conjugam o verbo assistir. Ops! Assistir ou assistir a? No caso, é prestar assistência. Transitivo direto, o trissílabo dispensa intermediários. Vai direto à ajuda: O governo assiste os necessitados. O médico assiste o doente. Os bombeiros assistiram os moradores das casas alagadas.

Assistir a joga em outro time. Quer dizer presenciar, estar presente: Assisti ao filme premiado no festival. Assistimos a palestras pra lá de interessantes. Assistem à aula todos os dias. A que novelas você assiste? Gostaria de saber a que novela ele assiste. Eu não assisto a nenhuma.


Ruir

Eta verbinho preguiçoso. O boa-vida joga no time dos defectivos. Não se conjuga em todas as pessoas, tempos e modos. Amante da eufonia, quer soar bonito. Por isso só se flexiona nas formas em que o u é seguido de e e i. Eu ruo? Que eu rua? Nem pensar. Melhor: ele rui, nós ruímos, eles ruem, ele ruiu, ele ruía, você ruiria, ela ruirá ruirá. E por aí vai.

Curiosidade

Maria, quando fala, olha fundo nos olhos da pessoa. Com o tempo, se deu conta de que existem poucos olhos iguais. Há mil e uma nuanças que diferenciam uns de outros. Surgiu, então, uma dúvida. Por que, no plural dos adjetivos indicadores de cor, só claro e escuro se flexionam? As outras indicações de tonalidade ficam invariáveis. O mistério tem um porquê?

Tem. É a velha história dos adjetivos compostos. Quando os dois elementos são adjetivos, o primeiro apela pra lei do menor esforço. Acomoda-se. Deixa a dureza com o segundo: olhos castanho-claros, olhos azul-escuros, olhos verde-claros, camisas verde-amarelas.

Às vezes, quem responde pela diferença é um substantivo. É o caso de verde-mar, castanho-avelã, azul-bebê, verde-canário. Ora, mar, avelã, bebê e canário são nomes. Não indicam cor. Então, a língua recorre a um truque. Deixa subentendida a expressão da cor de. Com ela, o substantivo não tem saída. Fica sempre no singular: olhos verde-(da cor do) mar, olhos castanho- (da cor da) avelã, olhos verde-(da cor do) canário.

Sem generalizar

Ultravioleta e infravermelho não são adjetivos compostos. Mas jogam no time dos duplos. Violeta é substantivo. Não se flexiona. Vermelho é adjetivo. Varia: raios ultravioleta, raios infravermelhos.
 

Leitor pergunta

Parece bobeira. Mas morro de curiosidade. Qual é o coletivo de baleia?
João Rafael, Guará

Nossa! Vamos à pesquisa. Procura daqui, vasculha dali, eureca! É baleal.

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