Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

Fidelidade sim, senhores

"É preciso descascar o texto como quem descasca uma fruta, ir buscar a semente. Escrever é principalmente cortar." Fernando Sabino

19/12/2017 11:10 | Atualização: 19/12/2017 16:27

Dad Squarisi

O verbo chegar é fiel e não abre. Apaixonado desde sempre pela preposição a, não quer mudar o objeto do desejo. Esteja onde estiver, chegue aonde chegar, a companhia dele é uma só:  

A polícia chegou ao local logo depois da explosão em Nova York.


Chegou a Brasília.

O voo chega ao Rio antes das duas horas.

Aonde você quer chegar? A lugar nenhum.

Desavisados tentam jogar o verbinho no mau caminho. Impõem-lhe a preposição em. Sem constrangimento, dizem “chegou no Brasil, chegou em São Paulo, chegou no aeroporto”.

— Xô, satanás!
, reage o obsessivo, que só tem olhos para o a.


De onde vêm as ideias?

Ideias não surgem do nada, mas do acúmulo de informações. Segundo o neurocientista Henrique Del Nero, da USP, a criatividade é proporcional ao repertório. “A mente calcula qual a melhor jogada a partir da maior taxa de informações com a menor redundância”. Por isso, fique esperto. Enriqueça seu banco de dados com atividades que, além de despertar a imaginação e a fantasia, gerem novas imagens. É o caso de leituras, viagens e atividades artísticas.

Xô! Xô! Xô!

Reparou? Há uma praga teimosa na praça. Como quem não quer nada, ela foi avançando e ganhando espaço. Hoje aparece em frases a torto e a direito. Trata-se de advérbios terminados em –mente. Cortados, não fazem falta. Melhor: deixam a frase mais leve e elegante. Quer ver?

João deve sair (provavelmente) ao meio-dia.

Cumpriu a ordem (exatamente) como o diretor determinou.

(Atualmente) todo mundo tem celular.

A reclamação era (completamente) inoportuna.

Disse (exatamente) isso, sem tirar nem pôr.

Os clientes odeiam (principalmente) ter de esperar.


Viu? Como disse George Simenon, “Corto adjetivos, advérbios e todo tipo de palavra que está lá só para fazer efeito”.

O &

O símbolo & tem nome. É e comercial. O criador: Marcus Tulius Tiro, encarregado de transcrever os discursos feitos no Senado de Roma. A criatura, que veio ao mundo 63 anos antes de Cristo, tinha uma função – tornar a escrita mais rápida. O & substituía o et (e em português). Com o tempo, o sinalzinho se especializou. Deixou os políticos pra lá e entrou, triunfal, no universo das empresas.

Sabia?

No futebol, há jogadores pra lá de hábeis. São capazes de dar sucessivos toques na bola – com os pés, as coxas, os ombros ou a cabeça – sem que ela tenha contato com o chão.  O espetáculo se chama embaixada. Mas o nome não tem nada a ver com representação diplomática, Itamaraty & cia. Tem a ver com a forma como se toca na pelota – por baixo. Malandro, o pé começa a manobra embaixo da redonda.


Sempre só

Acredite, por favor. O verbo sobressair não é pronominal. Altivo, dispensa o objeto (direto e indireto). Reina sozinho, absoluto: O advogado sobressai (não sobressai-se) no processo. O relator sobressaiu na discussão ao defender a Lei da Ficha Limpa. No confronto, o Grêmio sobressaiu.

Leitor pergunta

Entre ou dentre? Trata-se de velha dúvida que não me dá sossego. Pode me ajudar?
Elias Silva, Floripa

A dúvida não é só sua, Elias. É de muitos. Guarde isto: dentre tem uso muito limitado. É fruto do casamento de duas preposições — de + entre. O verbo sair serve de exemplo:

O senador saiu dentre dois deputados.

A gente sai de algum lugar. De onde? De entre dois deputados.

Se não houver encontro de de e entre, nada feito. É a vez da solteirinha entre:

Está entre a cruz e a espada.

Entre um e outro, o pai deve escolher o filho mais velho.

Entre os selecionados, há dois projetos em discussão.

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