Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

Acordos e concordâncias

"O estilo é o domínio da escolha." Francis-Noël Thomas e Mark Turner

19/04/2018 12:21 | Atualização: 19/04/2018 12:54

Dad Squarisi

Vivemos de acordos. Matriculamos o filho nesta ou naquela escola porque acreditamos que ela retribuirá a confiança. Tomamos um táxi na certeza de que o motorista tem carteira de habilitação. Depositamos o dinheiro no banco sem duvidar de que podemos sacar os reais quando quisermos. Consultamos o médico sem pedir prova de que cursou a faculdade de medicina.


A língua também firma acordos. O mais célebre envolve dois velhos conhecidos. Um deles: o sujeito. O outro: o verbo. O primeiro manda. O segundo obedece. Daí a regra: o verbo concorda com o sujeito em pessoa e número. Aonde um vai, o outro vai atrás: eu trabalho, tu trabalhas, ele trabalha, nós trabalhamos, eles trabalham. O livro custa caro. Os livros custam caro.

Simples assim. Mas há construções que dão nó nos miolos. Uma delas: preposição com. Outra: assim como, bem como. Mais uma: não só... mas também, tanto... quanto. Por fim: nem... nem. Elas não fogem à norma. Mas têm manhas que enchem a cabeça de pontos de interrogação. Vamos às respostas?


Com

Quando os núcleos do sujeito estão ligados pela preposição com, ocorrem duas hipóteses. Ora o com indica adição (=e). O verbo concorda com eles. Ora indica companhia. Aí vai entre vírgulas, e o verbo concorda com o núcleo do sujeito. Compare: O ministro com (= e) os assessores responderam às perguntas com desenvoltura. O ministro, com os assessores, respondeu às perguntas com desenvoltura. O acusado com a mulher e os filhos apresentaram-se ao delegado. O acusado, com a mulher e os filhos, apresentou-se ao delegado.

Viu? A vírgula faz a diferença.

Assim como, bem como

Essas duplinhas jogam no time do com. Admitem duas leituras. Uma indica adição. A outra, comparação. O verbo, por isso, pode concordar com o primeiro termo ou com todos. A vírgula sinaliza o caminho a seguir: O pai assim como o filho aplaudiram o espetáculo. O pai, assim como o filho, aplaudiu o espetáculo. Paulo bem como Maria trabalham à noite. Paulo, bem como Maria, trabalha à noite.

Olho na vírgula. Ela fala e diz.

Não só...mas também, tanto... quanto

Ambas dão ideia de adição. Somam. Com elas, o verbo vai para o plural: Não só Maria mas também Nair desistiram do concurso. Tanto Maria quanto Nair desistiram do concurso.

Nem...nem

Lembra-se das aulas de gramática? Mais dia, menos dia, a moçada tinha de decorar as conjunções coordenativas. As primeiras da lista eram as aditivas e, nem. Como o nome denuncia, elas adicionam. Núcleos do sujeito ligados por elas não têm saída. São plural: Nem o deputado nem o senador compareceram no plenário. Nem o pai nem a mãe acompanharam o filho na competição.

Deu bobeira

A coluna de domingo caiu nos braços de Morfeu. Ao responder ao leitor sobre o emprego da vírgula em artigos, parágrafos, incisos etc. e tal, escreveu crescente no lugar de decrescente. Eis a forma nota 1000:

1. Se a referência obedecer à ordem crescente, não use a vírgula: Inciso II do parágrafo 2º do art. 5º da Constituição Federal.

2. Se a referência obedecer à ordem decrescente, a vírgula pede passagem: Constituição Federal, art. 5º, parágrafo 2º, inciso II.


Leitor pergunta

Tenho de responder a três advogados um e-mail que recebi sobre uma proposta de serviço que me enviaram. Quero dizer: "Venho registrar o meu aceite à .... proposta de trabalho."

Não sei qual o pronome usar. Se a resposta fosse a um só advogado, diria: "meu aceite à sua proposta". Como fica a minha resposta se a proposta é de três advogados (suas, vossa)?

Maria Silva, BH

O pronome possessivo concorda com o substantivo a que se refere (meu vestido, meus vestidos, nossa saia, nossas saias, sua proposta, suas propostas). Então, o suas não cabe. O vossa exige o tratamento vós. A saída? O pronome é desnecessário. Se é desnecessário, sobra. O contexto diz que se trata da proposta deles: Venho registrar o meu aceite à proposta de trabalho.

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