Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

Pulga atrás da orelha

"O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é o dicionário." Albert Einstein

02/05/2018 22:53 | Atualização: 02/05/2018 22:57

Dad Squarisi

“Temperamento é calcanhar de Aquiles de Joaquim Barbosa”, escreveu a Folha de S.Paulo. Leitores leram e releram a frase. Respiraram fundo. Tentaram mudar de assunto. Em vão. Uma pulga teimava em lhes cutucar a orelha. A causa não tinha nada a ver com política. A razão do incômodo era linguística. Em bom português: o emprego da inicial maiúscula.  


Já era

Mudar é bom? Os mesmeiros dizem que não. Preferem deixar tudo como está pra ver como é que fica. Os adeptos da transformação inspiram-se na natureza. Citam o suceder do dia e da noite, das estações do ano, das fases da Lua. Citam, também, o ciclo da vida humana – nascemos, crescemos, morremos. No percurso, quem não andava anda, quem não falava fala, quem tomava só leite passa a comer cereais, carnes, frutas e verduras.

A língua joga no time dos mutantes. Instrumento de comunicação das pessoas, muda conforme mudam os tempos e os falantes. Concordâncias, regências, colocações, significados trocam o passo conforme a música. A grafia não fica atrás. Maiúsculas e minúsculas servem de exemplo.


Nomes próprios

Os nomes próprios se escrevem com inicial grandona. É o caso de João, Maria, Aquiles, Pará, Colônia, Brasil. Às vezes, porém, eles entram na composição de substantivos comuns. O resultado é um só. Tornam-se vira-latas: joão-de-barro, castanha-do-pará, água-de-colônia, pau-brasil, banho-maria, maria vai com as outras, calcanhar de aquiles.


Disciplinas

Nome de disciplinas tem pedigree. Português, Inglês, Francês, Espanhol, quando matéria estudada na escola, ganham inicial grandona. As mesmas palavras, ao dar nome a idioma, perdem a majestade. Escrevem-se com a inicial pequenina: No Brasil, fala-se português. O português, o francês, o espanhol são línguas latinas.

Pontos cardeais

Norte, Sul, Leste, Oeste, quando pontos cardeais, são nomes próprios. Mas, se definem direção ou limite geográfico, cessa tudo o que a musa antiga canta. As moçoilas entram na vala comum: O leste dos Estados Unidos tem grande influência latina. O carro avançava na direção sul. Cruzou o país de norte a sul, de leste a oeste.

Moral da história

Na língua, quem foi rei perde a majestade sim, senhor. A Folha de S.Paulo teria merecido tapete vermelho e banda de música se tivesse homenageado os leitores com esta frase: Temperamento é calcanhar de aquiles de Joaquim Barbosa.


Leitor pergunta

Baixar ou abaixar? Às vezes, me parece que um e outro se podem usar indiferentemente. Outras vezes, tenho a impressão de que um se impõe. Pode me ajudar?
Carmem Rafaela, BH

A duplinha é sinônima. Mas tem empregos especializados. Quer ver?

Baixar tem vez exclusiva:

1. quando o verbo for intransitivo (a temperatura baixou, o nível da água baixa na seca, o preço da carne baixará);

2. no sentido de expedir (o presidente baixa decreto, o secretário baixou portarias, o ministro baixa instruções);

3. na expressão “baixar programas na internet”.

No mais, com objeto direto, um ou outro verbo têm uso corrente: baixou (abaixou) a voz, baixa (abaixa) o preço, baixou (abaixou) o volume do som.

Abster-se é verbo que vai fazer a festa na eleição de outubro. Como conjugá-lo?
Cleo Martins, Porto Alegre

Abster-se é derivado de ter. Um e outro se conjugam do mesmo jeitinho, observadas as regras de acentuação: eu me abstenho, ele se abstém, nós nos abstemos, eles se abstêm; eu me abstive, ele se absteve, nós nos abstivemos, eles se abstiveram; se eu me abstiver, ele se abstiver, nós nos abstivermos, eles se abstiverem; eu me tenho abstido; ele está se abstendo.

E por aí vai.

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