Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

Adeus, Copa. Vem, campanha

"Elogiar não dá mais trabalho do que criticar." Provérbio francês

23/07/2018 13:28 | Atualização: 23/07/2018 15:02

Dad Squarisi

A Copa acabou. Mal a França levantou a taça, a campanha eleitoral entrou no ar. Os candidatos querem fazer bonito. Contratam marqueteiros. Fantasiam-se de bonzinhos, trabalhadores e competentes. Ensaiam o discurso. Esbanjam próclises e mesóclises. Treinam formas rizotônicas e arrizotônicas. Sobretudo evitam o eu.


O pronomezinho dá a impressão de arrogância. Saída? Os loucos pelo poder recorrem a truques. O mais popular: o plural de modéstia. Em vez do eu, usam nós. É mentirinha. O nós continua eu. Por isso, o emprego da falsa modéstia impõe regras. O verbo vai para o plural. Mas adjetivos e substantivos ficam no singular:

Ciro disse:

— Nós somos candidato preparado e experiente.

Alkmin não deixou por menos:

— Nós somos modesto e corajoso.

Se o sujeito fosse sincero, o nós se referiria a mais de uma pessoa. Aí, as frases seriam: Nós somos candidatos preparados e experientes. Nós somos  modestos e corajosos.

É isso. Como diz o outro, as aparências enganam. A língua, generosa, colabora. Olho vivo!

A vez do pré-

É pré-candidato pra lá, pré-candidato pra cá, pré-candidato pracolá. Está em cartaz, o prefixo pré. Como lidar com ele? As três letrinhas são indecisas. Ora pedem hífen. Ora dispensam-no. Usam-se com tracinho: pré-escola, pré-vestibular, pré-estreia (mas há muitas exceções: preanunciação, preaquecer, precogitar, precondição, predefinido, predelineado, predeterminado, predisposto, preestabelecido, preexistente, prefigurado, prefixado, pregustado). Na dúvida, consulte o dicionário.

Verbo generoso

Eleito ou elegido? Depende. Com os auxiliares ter e haver, elegido pede passagem. Com ser e estar, eleito: O deputado foi eleito duas vezes. Ele está eleito. O povo havia elegido o governador no 1º turno. O brasileiro tem elegido bons políticos?  

Time invariável

A campanha eleitoral está nas ruas e no ar. Preste atenção aos discursos. Nove entre 10 candidatos têm especial apreço por locuções conjuntivas. Dizem a torto e a direito "de formas que", de "maneiras que". Os ouvidos dos eleitores reclamam. Os doidinhos por excelência não estão nem aí.

De forma que e de maneira que são locuções conjuntivas. Jogam no time das conjunções. Invariáveis, não aceitam o plural nem com ameaça de morte: Fez o pronunciamento de maneira que agradasse aos ouvintes. Preencheu a ficha de modo que não deixasse margem a dupla interpretação. 

Cena eleitoral

O candidato pergunta ao secretário:

— O santinho está pronto?
— Já está imprimido.


A dúvida pintou: imprimido ou impresso? A questão procede. Imprimir é verbo generoso. Tem dois particípios. Um: imprimido. O outro: impresso. Quando usar um ou outro? Depende do auxiliar. Com ter e haver, imprimido pede passagem. Com ser e estar, impresso: Quando o deputado chegou, a editora já tinha (havia) imprimido o santinho. O santinho é (está) impresso.
 

Leitor pergunta

Ao citar artigos de leis, quando usar o numeral cardinal e o numeral ordinal?
André Boanova, Canoas

Na numeração de artigos de leis, decretos, medidas provisórias & gangue, use o ordinal até nove. De 10 em diante, o cardinal: artigo 1º, artigo 9º, artigo 10, artigo 17.

***

Quando o quê pede acento? Trata-se de dúvida antiga que me deixa insegura quando escrevo.
Tereza Andes, Brasília

O quezinho aparece enchapelado em duas situações:

1.    Quando for substantivo. Aí, tem plural: O noivo tem um quê provinciano. Não sei os quês dos porquês. A letra quê tem charme. A modelo tem um quê sedutor. Nenhum dos quês recebeu a resposta adequada.

2.    Quando está no fim (no fim mesmo) da frase: Você saiu por quê? Os americanos estão irritados com quê? Quê! Você por aqui? O quê? Repita, por favor. Ela estava triste, mas não disse por quê. Trabalho muito, mas não sei por quê.

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