Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

Discórdia na redação

"Todas as cartas de amor são ridículas / não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.../ Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amoré que são ridículas." Fernando Pessoa

05/09/2018 19:49 | Atualização: 05/09/2018 20:08

Dad Squarisi

Foi um pega pra capar. De um lado, o grupo do singular. De outro, o do plural. O pomo da discórdia: a concordância do verbo da manchete prevista para a página de Esportes. “Nem tudo são flores para o líder”, dizia o texto.

O primeiro time argumentava que o verbo concorda com o sujeito. No caso da frase em questão, é tudo. Logo, a redação deveria ser esta: Nem tudo é flores.


A segunda equipe lembrava que o verbo ser tinha privilégios. O verbo poderia concordar com o predicativo. É o caso do período que encabeça a página. Logo, mereceria nota 10 “tudo são flores”.

E daí?

Verbo complacente

É ou são? Ops! Trata-se do verbo ser. Ele é complacente. Ora aceita uma forma, ora outra. Ora as duas. Especial, recebe tratamento diferenciado. Na concordância, a gramática lhe reserva capítulo à parte.

Hoje é 2 de setembro? Ou são 2 de setembro? Cem reais é muito? Ou são muito? É quase duas horas? Ou são quase duas horas? Dúvidas. Muitas dúvidas.

Sem rigidez

O verbo ser tem a cintura mais flexível do português. Nunca toma posição firme. Ora considera o sujeito simpático. Vai pro lado dele. Ora o predicativo o atrai mais. Eterno infiel, passa pro lado de lá.

Nem tudo é flores ou nem tudo são flores? O verbo olha para flores. Acha-as simpáticas, coloridas e cheirosas. Decide: Nem tudo são flores. Em outras horas, lembra-se do que aprendeu na escola (o verbo concorda com o sujeito). Muda de lado: Nem tudo é flores.

 

Qual a forma correta? Ambas.

 

Jogo duplo

Com o ser, quase sempre as duas construções estão corretas. Há apenas três casos em que ele é durão. Inflexível, aceita apenas um número — ou é singular, ou é plural.

 

1. É uma hora. São três horas.

Na indicação de horas, o verbo só tem olhos para o predicativo. Concorda com o número que diz as horas: É meio-dia e meia. Seria uma hora da tarde. Eram umas 11 horas da noite.

Cuidado. Às vezes o número é antecedido por expressões que indicam aproximações. Fique frio. O verbo continua o mesmo: Seriam quase duas horas quando ele chegou. São cerca de seis horas de voo. Eram mais ou menos três horas quando o presidente fez o anúncio.

 

2. Um é pouco, dois é bom, três é demais.

Deu-se conta? As expressões de quantidade, medida, peso, valor, tempo — como é muito, é pouco, é suficiente, é caro, é barato — são invariáveis. Não ligam para o sujeito. Com elas, só o singular tem vez.

Veja exemplos: Dois mil reais é muito. Vinte quilos é suficiente. Dois minutos é muito para quem está com dor de dente. Vinte reais é menos do que o produto vale.

3.    Eu é que digo. Nós é que sabemos.

A expressão é que se chama expletiva. Significa que pode cair fora. Desprezada, não concorda com nada nem com ninguém Mantém-se invariável: As rosas (é que) são belas. Nós (é que) somos patriotas. Eles (é que) sabem a resposta.

É isso. Na língua como na vida, nem todos são iguais perante as regras. Alguns são mais iguais. É o caso do verbo ser. As três letrinhas nadam de braçadas nos privilégios.

Leitor pergunta

Ora vejo o sinal da crase antes de nome próprio feminino. Ora não vejo. Qual o correto?
Benjamin Sales, Olinda

O acento grave denuncia o casamento de dois aa. Nome próprio pede artigo? Depende da região. Os nordestinos não suportam pôr o a ou o o na frente do nome. Dizem: Encaminhei as cartas para Maria. Maria saiu. Paulo é irmão de Luiza.

Os sulistas, só pra contrariar, adoram o artigo: Encaminhei as cartas para a Maria. A Maria saiu.O Paulo é irmão da Luiza.

Por isso, usar o sinal da crase antes de nome de mulher é facultativo. Depende do gosto do freguês: Encaminhou as cartas a Carolina. Encaminhou as cartas à Carolina. Dirigiu-se a Luzia. Dirigiu-se à Luzia.

É isso, Benjamin: acertar, ou acertar.


PESQUISA DE CONCURSOS