Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

De olho nas pesquisas

%u201COs grandes escritores nunca foram feitos para suportar a lei dos gramáticos, mas sim para impor a sua.%u201D Erasmo

26/10/2018 12:22

Dad Squarisi

Reta final para o segundo turno. No domingo, os brasileiros vão escolher o presidente da República. E, em alguns estados, os governadores. Candidatos e eleitores têm um comportamento comum. Ficam de olho nas pesquisas. A divulgação dos levantamentos alegra uns e entristece outros. Ao falar no assunto, ambos têm uma preocupação — a concordância. Como fica o verbo em construções como 75% da população, 1% dos votos, 20% das mulheres? Singular ou plural?


A concordância de percentagem joga no time dos partitivos. O verbo pode concordar com o número ou com o nome: 75% da população votaram (concorda com 75). 75% da população votou (concorda com população). 1% dos votos foi anulado (concorda com 1). 1% dos votos foram anulados (concorda com votos).

Limite 1

Lembre-se de pormenor pra lá de importante. A generalização é burra. O verbo tem de concordar com o núcleo do sujeito ou o complemento. Às vezes, ambos são do mesmo número. Aí, adeus, escolha. Veja: 1% da população permanece indecisa. (O número é 1, singular. O nome é população, singular). 20% das mulheres declararam a preferência. (O número é 25, plural. O complemento, mulheres, plural.)

Limite 2

Às vezes, o número deixa a solteirice pra lá. Convida o artigo ou o numeral para juntar os trapos. Acompanhado, ele fica forte como Zeus no Olimpo. A concordância se fará só com ele: Uns 15% da população continuam indecisos. Os 10% do corpo docente mais qualificado se aposentam este ano. Este 1% de insatisfeitos tumultuará o processo.

Moral da opereta

Ao lidar com percentagem, todo o cuidado é pouco. A concordância pode enganar como pesquisa eleitoral. Olho vivo!

Palavra de Jorge Luis Borges
“A gente escreve os temas que se impõem. Eu não procuro o tema. Deixo que ele me persiga, me busque. Só então escrevo.”

Sobre escrever

Um grupo de estudantes visitou a coluna. Conversamos sobre redação. Eles, que vão fazer o Enem, pediram 15 dicas pra lá de importantes. Leitor não pede. Manda. Eis 15 lembretes:

1. Redigir é habilidade como nadar, digitar, jogar futebol, vôlei ou games. Exige treino. Treine. Escreva muito e sempre.

2. Escreva sobre qualquer coisa — novela, futebol, eleições.

3. O hábito de redigir se conquista com garra e perseverança.

4. Escreva livremente. Corrija depois.

5. Vá logo ao ponto. Não encha linguiça.

6. Comece com uma frase atraente que estimule a vontade de avançar até o fim. Termine com um fecho marcante. A última impressão é a que fica.

7. O dicionário é o reino das palavras. Consulte-o.

8. Erros gramaticais comprometem a imagem e roubam pontos.

9. Dê ao texto um toque humano. Você se dirige a pessoas de carne e osso.

10. Prefira palavras curtas e simples. Simplicidade impressiona mais que erudição forçada.

11. Na dúvida, use ponto.

12.Frases curtas são fáceis de entender e você acerta na pontuação, conjunções e correlação verbal.

13. Seja natural. Imagine que o leitor esteja à sua frente batendo papo.

14. Surpreenda. Fuja dos chavões e das frases feitas.

15. Não queira ser um escritor genial.

Leitor pergunta

À zero hora? A zero hora? Ocorre crase ou não?
Rafael Mendes, Lago Norte

Ocorre. Trata-se de locução adverbial formada por palavra feminina. Joga no time de às claras, às escuras, às apalpadelas, às 2h, à meia-noite.

Na dúvida, substitua hora por meio-dia. Se no troca-troca der ao, ponha o grampinho. Caso contrário, nada de crase: O avião decola à zero hora (ao meio dia). A aula começa às 13 horas (ao meio-dia). Estou aqui desde as 7 (o meio dia).

PESQUISA DE CONCURSOS