Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

Dória tropeça na língua

'Escute cem vezes. Reflita mil vezes. Fale uma vez.' Provérbio turco

31/10/2018 09:00 | Atualização: 07/11/2018 20:04

Dad Squarisi

Fechadas as urnas, um verbo fez a festa. É agradecer. João Doria, governador eleito de São Paulo, abusou. No discurso da vitória, agradeceu a gregos, troianos, baianos e sergipanos. Ninguém ficou de fora. Nem o gato e o cachorrinho lá de casa. Mas houve um senão. Na euforia, o ungido pelas urnas maltratou o verbo agradecer. Em todas as frases, desrespeitou a regência do polissílabo. “Agradeço os eleitores que confiaram em mim” serve de exemplo.


Agradecer tem regras. Pede objeto direto de coisa e indireto de pessoa (a gente agradece alguma coisa a alguém. Ou agradece a alguém por alguma coisa): Os governadores eleitos agradeceram ao povo a confiança neles depositada. Dória agradeceu os votos. Agradeceu aos eleitores pelos votos recebidos. Luís agradeceu o presente ao pai. Agradeço ao diretor pela promoção. Agradeço aos eleitores que confiaram em mim.

Na substituição do alguém pelo pronome, é a vez do lhe: Agradeço-lhe pela colaboração. Agradeceu-lhes o apoio. Agradeço-lhes pela confiança. Os governadores eleitos lhe agradeceram a confiança neles depositada. Vamos agradecer aos cidadãos pelo comparecimento às urnas.

Por falar em agradecer...

Obrigado joga no time de agradecido. Ele diz obrigado. Ela, obrigada. Eles, obrigados. Elas, obrigadas. Ele ficou agradecido. Ela, agradecida. Eles, agradecidos. Elas, agradecidas.

Atraso

Fernando Haddad fez o discurso da derrota. Tevês transmitiram o pronunciamento ao vivo. Ele falou, falou, falou. Os telespectadores aguardaram a prova de civilidade que faz parte da liturgia do processo — cumprimentar o vitorioso. Não o fez. Na manhã do dia seguinte, mandou o recadinho pelo Twitter.

Pegou mal. Ele confundiu adversário com inimigo. Inimigo é alguém que se odeia, a que se tem aversão. Não é o caso de postulantes a cargos eletivos. Nem de times de futebol que se confrontam. Candidatos são adversários durante a campanha, não inimigos. No Grenal, o Internacional é adversário do Grêmio, não inimigo.

Contágio de Bolsonaro

“Quem desrespeitar a lei sentirá a força da mesma”, disse Jair Bolsonaro em entrevista ao Jornal Nacional. Ops! O presidente eleito tropeçou num dissílabo pra lá de conhecido por quem anda de elevador. Trata-se de mesmo. Como lidar com ele? Depende.

1.    Quando reforça nome ou pronome, mesmo concorda com o termo a que se refere: Ele mesmo leu o discurso. Ela mesma leu o discurso. Nós mesmos (mesmas) lemos o discurso. Eles mesmos leram o discurso. Elas mesmas leram o discurso.

2.    Com o significado de realmente, mantém-se invariável: Ele disse mesmo a verdade. Eles saíram mesmo às 18h. Trabalha mesmo de domingo a domingo.

O que fez o futuro inquilino do Palácio do Planalto? Usou mesma no lugar de substantivo ou pronome. Bobeou: Vi Maria. A mesma embarcava no voo com destino a São Paulo. Xô! Vi Maria. Ela embarcava no voo com destino a São Paulo. Quem desobedecer a lei sentirá a força da mesma. Nãooooooooooooo! Quem desrespeitar a lei, sentirá a força da Justiça.

Altamente contagioso

Este aviso aparece na parede perto dos elevadores de norte a sul do país. É lei. Por isso é reproduzido tim-tim por tim-tim: “Antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar”.  Valha-nos, Deus, Maria e Divino Espírito Santo! É a receita do cruz-credo. O texto comete quatro pecados – na estrutura da frase, na pontuação, na colocação do pronome átono e no emprego do mesmo. A forma nota 10 é esta: Antes de entrar, verifique se o elevador se encontra neste andar. Melhor ainda: Antes de entrar, verifique se o elevador está neste andar.

Leitor pergunta

Li este anúncio: “Vendo pulseira incrustrada de diamantes”. Certo?
Sérgio Abu, Porto Alegre

Não. Incrustado vem de crosta. No anúncio, sobra um erre. Vamos corrigir? Assim: Vendo pulseira incrustada de diamantes.

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