Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

De limões e limonadas

%u201CO estilo é um modo muito simples de dizer coisas complicadas.%u201D Jean Cocteau

07/11/2018 20:06

Dad Squarisi

O brasileiro tem uma marca. Diante do inevitável, apela para a piada. Faz do limão uma limonada. Ri da desgraça. E, com isso, torna-a menos pesada. Vale o exemplo do Meia Hora de Notícias. O maior número de leitores do periódico fluminense é flamenguista. E, com certeza, não está nada feliz com as sucessivas perdas do time.


Nem por isso o jornal apostou no mau humor. Ao contrário. Escreveu manchete pra lá de divertida. Aproveitando evento que mobiliza o país de norte a sul, saiu com esta manchete: “Flamengo é o melhor do Enem: NEM Carioca, NEM Primeira Liga, NEM Copa do Brasil, NEM Sul-Americana, NEM Brasileiro”.  

Assim como repórteres e editores, o leitor atento não deixa por menos. Joga em dois times ao se deparar com a notícia. De um lado, fica de olho na informação. De outro, na língua. Bobeou? Vira piada. Não importa quem seja. Quer ver?

Manuela D´Ávila

Silvestre Gorgulho percorria o Twitter como sempre faz. De repente, não mais que de repente, leu esta mensagem de Manuela D´Ávila: “Declaro guerra contra Sérgio Moro e sua bancada, agora pegaremos em armas para fazer revolução igual a 59 anos atrás”.

Um dos comentário lhe chamou a atenção. É o de Brunão Franco, que tuitou: “Sra. ex-candidata a vice-presidente, para tempo transcorrido, usa-se há. O atrás é desnecessário. Por favor, antes de pegar em armas, pegue em livros”.

Conclusão

Manu faltou à aula em que o professor ensinou lição pra lá de elementar. Trata-se do emprego do verbo haver na contagem de tempo. Para indicar passado, o dissílabo pede passagem. Na indicação de futuro, é a vez da preposição a: A eleição ocorreu há 10 dias. Daqui a menos de 60 dias, o novo presidente tomará posse.

E o atrás? O danadinho, tal qual o haver, indica passado. Usar os dois juntos dá pleonasmo. Melhor ficar com um ou outro: Agora pegaremos em armas para fazer revolução igual à feita há 59 anos. Agora pegaremos em armas para fazer revolução igual à feita 59 anos atrás.

Moro x Bolsonaro

José Ricardo escreveu: “Moro e Bolsonaro já divergem feio. A culpa é do hífen”. A conclusão se baseou neste tuíte do presidente eleito: "O juiz federal Sérgio Moro aceitou nosso convite para o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Sua agenda anti-corrupção, anti-crime organizado, bem como o respeito à Constituição e às leis, será o nosso norte!"

Escreveu Moro em declaração distribuída à imprensa: " ... a perspectiva de implementar uma forte agenda anticorrupção e anticrime organizado ..."

Dizem que o hífen é castigo de Deus. Ao menor descuido, pega o bobo na casca do ovo. Foi o que aconteceu. Na pressa, Bolsonaro se esqueceu da mão pesada do Senhor. Anti- pede tracinho quando seguido de h ou de i. No mais, é tudo colado: anti-herói, anti-instituições, anti-idade, anticorrupção, anticrime, antigovernamental, antiescravidão, antioposição.

Leitor pergunta

Li a nota de Sérgio Moro com atenção. Vi tropecinhos linguísticos aqui e ali. Numa passagem, o juiz abusou. Além da concordância, desrespeitou a crase: “No entanto, a perspectiva de implementar uma forte agenda anticorrupção e anticrime organizado, com respeito a Constituição, a lei e aos direitos, levaram-me a tomar esta decisão”. Pode comentar?
Antonio Carlos, Curitiba

Ops! O sujeito de levar é perspectiva. Sujeito singular pede verbo no singular: No entanto, a perspectiva...levou-me.

E o acentinho indicador de crase? Com a aplicação do tira-teima, o juiz teria escapado do escorregão. Bastava ter trocado a palavra feminina por uma masculina. Se no resultado aparecesse ao, sinal de case. Caso contrário, nada feito: ...com respeito ao Regimento Interno, ao trabalho e aos direitos.

Vem, acentinho: ... com respeito à Constituição, à lei e aos direitos.

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