Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

Notre Dame em chamas

'Quanto mais se sabe, de menos se precisa.' Provérbio aborígine

17/04/2019 09:54

Dad Squarisi

Dizem que Hitler não mandou bombardear o bairro antigo de Paris por uma única razão — poupar Notre-Dame. Verdade ou mito, a história presta homenagem à obra. Majestosa, a catedral gótica, de 800 anos, recebe 13 milhões de turistas por ano, 30 mil por dia. Não por acaso é um dos cartões-postais da capital francesa. Não por acaso, também, inspirou poetas, escritores, pintores. Até Walt Disney.

A tragédia, claro, foi notícia em Europa, França e Bahia. Repórteres se desdobraram em busca de informações. Ao escrever os fatos apurados, pintaram dúvidas. Muitas dúvidas. Uma delas referia-se ao verbo destruir. A questão: destrói sempre se escreveu com acento. Mas a reforma ortográfica cassou o grampinho dos ditongos abertos ei e oi. E daí?

Meia verdade

Os jornalistas têm razão? Sim e não. Eles se esqueceram de pormenor pra lá de importante. A reforma só atingiu as palavras paroxítonas. Oxítonas, proparoxítonas e monossílabos tônicos permaneceram como dantes no quartel de Abrantes. Ora, constrói joga no time das oxítonas. A sílaba tônica é a última. Nota 10 para eu construo, ele constrói, nós construímos, eles constroem; eu destruo, ele destrói, nós destruímos, eles destroem.

Um lá, outro cá

Por só afetar as paroxítonas, palavras da mesma família mudaram de equipe. É o caso de herói e heroico. O dissílabo manteve o grampinho porque é oxítono. O trissílabo ficou com o ditongo livre e solto por ser paroxítono. Faz companhia a paranoico, estoico, joia, jiboia.

Eu sozinho

Monossílabos só têm uma sílaba. Por isso formam o time do eu sozinho. Apesar da pequenez, escaparam da facada da reforma ortográfica. Daí por que dói, sóis & cia. solitária exibem o grampinho.

Companhia

O ditongo ei entrou na dança do oi. As paroxítonas mandaram o agudão plantar batata em terra infértil. Hoje, ideia, assembleia, teteia etc. e tal se grafam assim — sem lenço nem documento.

Igualzinho

Tal qual o irmãozinho oi, o ei mantém o acento nas oxítonas e nos monossílabos tônicos: papéis, pincéis, tonéis, anéis, painéis.

Por falar em ditongo 

Atenção, gente fina. Ditongo é como unha e carne. Não se separa nem com reza braba. Por isso, bobear é proibido. Olho vivo ao chegar ao fim da sílaba:

joia — joi-a

jiboia — ji-boi-a

ideia — i-dei-a

assembleia — as-sem-blei-a

Diferencial

A reforma não poupou os acentos diferenciais. Foram-se os das paroxítonas. Pêlo, pélo, para, pólo, pêra ficaram mais leves. Assim: pelo, para, polo, pera.

Exceção? Só duas. Mantém-se o chapéu de pôde, passado do verbo poder (eu pude, ele pôde). E o verbo pôr fica com o circunflexo. A razão? Ele é monossílabo tônico. Escapou da facada.

Leitor pergunta

Sequestro relâmpago ou sequestro-relâmpago?
Diana Célia, Porto Alegre

Como adjetivo, relâmpago se usa sem hífen e concorda em número com o substantivo a que se refere: sequestro relâmpago, sequestros relâmpagos, paralisação relâmpago, paralisações relâmpagos.

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