Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

Questão de crase

''Nas palavras e nas modas, observe a mesma regra: sendo novas ou antigas demais, são igualmente grotescas.'' Pope

30/06/2019 06:00

Dad Squarisi

“A crase não foi feita pra humilhar ninguém.” A frase de Ferreira Gullar fez escola. José Cândido de Carvalho adaptou-a para o sinalzinho de pontuação responsável por um mar de vítimas. “A vírgula”, escreveu ele, “não foi feita pra humilhar ninguém”. É verdade. Uma e outra têm papel definido. Contribuem para a clareza da mensagem. Dois casos servem de exemplo.

Um

Circula na internet uma brincadeirinha divertida. Ela joga com os diferentes sentidos decorrentes da presença ou da ausência da crase. Veja:

Se você me desse a tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase.

Do jeito que está, a tarde funciona como objeto direto. Ela completa o sentido do verbo dar. A gente dá alguma coisa — dinheiro, presente, boa notícia. No caso, a pessoa dá a parte do dia em que o Sol começa a voltar pra casa. Belo e poético presente. Mas o receptor se dispõe a abrir mão dele. Prefere trocá-lo por algo que não está expresso, mas apenas subentendido:

Se você me desse à tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase.

À tarde, assim, com acentinho grave, muda o enredo da novela. Em vez de complemento romântico, torna-se adjunto adverbial de tempo. O objeto fica em aberto, entregue ao gosto do freguês. Marcelo Abreu comentou: “Como se diz no Maranhão, é crase cheia de saliência. Com ela, a história mudaria completamente”.

Dois

O amor bate à porta

E tudo é festa.

O amor bate a porta

E nada resta.

A quadra, do piauiense Cineas Santos, também brinca com o acento grave. Como no exemplo anterior, o autor joga com as possibilidades da língua. À porta funciona como adjunto adverbial de lugar. Toc, toc, toc, anuncia ele, louco para entrar.

Em “bate a porta”, porta funciona como complemento do verbo bater. Podemos bater o bolo, bater o ponto, bater o prego. Ele pummmmmmm! Adeus, para nunca mais.

Por falar em crase 

Vamos combinar? Só pode brincar com crases & cia. quem conhece as possibilidades da língua. É o caso dos autores analisados. Eles dominam as manhas do acento grave. Não é difícil. Quer ver?

1. Só ocorre crase se dois aa se encontrarem. O casório se dá quando a preposição a encontra outro a. Pode ser o artigo definido, o pronome demonstrativo a, ou o a inicial dos pronomes aquele, aquela, aquilo: O cão é fiel à dona. Entreguei o relatório àquele senador. Fez referência à tradução à qual nos temos dedicado.

2. Excluindo-se o caso dos demonstrativos, só haverá crase antes de palavra feminina, clara ou subentendida: Obedecemos à lei. Fui à Editora Nacional e à (editora) Globo. Canta à (moda de, maneira de) Julio Iglesias.

3. Use a crase em locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas formadas por palavras femininas: à vista, às vezes, às escuras, às pressas, à noite, à tarde, à moda de, às apalpadelas, às tontas, às claras, à direita, à esquerda, à uma hora, à base de, à custa de, à força de, à espera de, à medida que, à proporção que.

Superdica

Forma fácil de descobrir se ocorre crase é substituir a palavra feminina por uma masculina (não precisa ser sinônima). Apareceu ao? Sinal de acento grave:

Fiel à dona. Fiel ao dono.

Fez referência à tradução (ao texto) à qual (texto ao qual) nos temos dedicado.

Saiu à uma hora. Saiu ao meio-dia.

Visitou a amiga. Visitou o amigo.

Leitor pergunta

Vou a Brasília? Vou à Brasília? Nunca sei.
Sara Souza, Guarujá

Substitua o verbo ir por voltar e oriente-se pela quadra:

Se, ao voltar, volto da,

Craseio o a.

Se, ao voltar, volto de,

Crasear pra quê?

Volto de Brasília.

Volto de? Crasear pra quê? Vou a Brasília. 

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