Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

Jeitinho de dizer

''Quem sabe ouvir é popular em toda parte e acaba aprendendo alguma coisa.'' Wilson Mizner

06/11/2019 08:00

Dad Squarisi

Bruno Covas foi ao médico tratar um problema de pele. Descobriu que tinha câncer no esôfago com metástase no fígado. “Vamos à luta”, disse ele. E se submeteu à quimioterapia. Correu tudo bem. Mas o cateter pregou uma peça. Formou um coágulo no coração.

O jeito é prolongar os dias no hospital. O prefeito de São Paulo encarou o contratempo numa boa. Melhor: pronunciou a palavra como manda a prosódia. Cateter é oxítona. A sílaba tônica fica no finzinho — ter. O plural, cateteres. Muitos dizem catéter. Trata-se de forma popular.

Propriedade vocabular

“Li que o Supremo iria debater a censura. Errado. Censura não se debate. Censura se combate”, disse a ministra Cármen Lúcia. Palmas pra ela. E, de quebra, uma curiosidade. Censura pertence à família de censo. Na antiga Roma, o censor tinha duas atividades. Uma: fazia o censo da população. A outra: policiava os usos e costumes dos romanos.

Sem confusão

Uma letra faz a diferença. Olho vivo:

Censo = recenseamento (censo demográfico)

Senso = juízo, capacidade de julgar, avaliar, sentir: bom senso, senso moral, senso de humor, senso artístico, senso do ridículo.

Exigência

Oba! Hoje é dia do megaleilão do pré-sal. Os investidores se assanharam. A bolsa bateu recorde. Para manter a alta, uma condição se impõe — pronunciar a palavra com pompa e circunstância. Recorde rima com concorde. Paroxítona, a sílaba tônica é cor.

Por falar em megaleilão 

Mega- pede hífen quando seguido de h ou a. No mais, é tudo colado: mega-homenagem, mega-história, mega-aventura, mega-assistência, megaoperação, megainvasão, megassistema, megarretenção.


Reaver

Receita apreendeu R$ 3,8 milhões de viajantes em 20019. Eles transportam boladas de dinheiro ou obras de arte sem declarar. Resultado: caem nas malhas da fiscalização. O assunto é notícia. “Muitos tentaram, mas poucos reaviram os bens”, disse o repórter. Bobeou.

Quem vê cara não vê formação. Reaver que o diga. À primeira vista, o verbinho tem pinta de derivado de ver. Mas é só à primeira vista. Os dois nunca se viram nem no elevador. Reaver é filhote de haver. Significa haver de novo, recobrar, recuperar: Ladrões assaltaram a casa de Gilda. Levaram joias e dinheiro. A polícia os prendeu, mas não conseguiu reaver os bens.

Tal pai, tal filho

Reaver se conjuga como haver, mas só nas formas em que o v do paizão se mantiver: reavemos, reavei;, reouve, reouveste, reouvemos, reouveram; reavia, reavias, reavíamos, reaviam; reaverei, reavereis, reaverá, reaveremos, reavereis, reaverão; reaveria, reaverias, reaveríamos, reaveriam; reouver, reouveres, reouver, reouvermos, reouverem; reouvesse, reouvéssemos, reouvessem; reavendo, reavido.

Xô!

Não caia na tentação. Reavê, reaviu, reaveja seriam derivados de ver. Não existem. Nem fazem falta. Recuperar ou recobrar estão aí pra quebrar o galho. Lembre-se: o inferno está cheinho de insubstituíveis.


Erramos

Na coluna de domingo, havia uma nota chamada “Bruxaria”. Nela, um erro. Faltou uma letra. Em vez de br, leia-se bru. Assim: “Quinta foi Dia das Bruxas. Os americanos o comemoram. Nós nem ligamos pras coitadas. Deixamo-las lá, montadas na vassourinha. Mas elas, generosas, ensinam uma lição. X ou ch? Depois de bru, não vacile. É a vez do x: bruxa, bruxaria, bruxulear, Bruxelas”. Perdão, leitores.

Leitor pergunta 

Li há alguns dias num jornal o seguinte: “PF acusa navio grego de derramar petróleo”. Achei estranho o uso do verbo acusar aplicado a objeto. Ele não é específico para pessoa?
Francisco L. Moura da Costa, Brasília

Na imprensa é comum personificar coisas. Aceita-se o procedimento com naturalidade: STF decidirá sobre a prisão em segunda instância. Israel acusa Irã de terrorismo. Espera-se a posição do MEC.

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