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Dicas da Dad

Dad Squarisi é editora de Opinião do jornal Correio Braziliense e comentarista da TV Brasília. Além disso, participa de bancas examinadoras de concursos e tem várias obras publicadas.

dad.squarisi@correioweb.com.br



A PÁSCOA E A LÍNGUA

Páscoa quer dizer passagem. Na origem, não tinha nenhum parentesco com religião. Bem antes de Moisés vir ao mundo, os pastores nômades comemoravam a Páscoa. Cantavam e dançavam pela despedida do inverno e a chegada da primavera. Na nova estação, a neve se ia. Os campos se cobriam de pastagens. Os alimentos se ofereciam generosos. Os judeus pegaram carona na palavra. Lembram, com sacrifícios, a saída do povo de Israel do Egito. Foi a passagem da escravidão para a liberdade. No livro Êxodo, a Bíblia conta toda a história. Em 325, os cristãos instituíram a Páscoa. Com ela, exaltam a ressurreição de Cristo -- a passagem da morte para a vida. Para católicos e protestantes, a Páscoa simboliza a morte vicária. Jesus morreu em lugar dos homens. Para salvá-los.

Os vicários
A religião fala em morte vicária. A língua, em termo vicário. Ambos têm dois pontos comuns. O primeiro: a substituição. A morte de Cristo substituiu a dos homens. O termo vicário substitui outro citado. O segundo: o objetivo nobre. Jesus salvou os homens. O vicário evita repetição.

Vale o exemplo de pronomes. Eles ocupam o lugar de um nome referido. O texto agradece. Escrever a mesma palavra pertinho uma da outra? Valha-nos, Deus! A frase fica monótona. O vicarinho quebra o galho. Aprecie:

João, Rafael, Kadu e Carlos estão felizes. Eles descobriram montões de ovinhos no jardim de casa.

Muitas pessoas têm triplo expediente. É o caso de Maria. Ela trabalha das 8h às 18h. Depois, estuda.

Você viu Ariano Suassuna na Bienal? Eu não o vi. Que pena!

-- Por que o senhor renunciou?, perguntaram os repórteres a Jânio Quadros.
-- Fi-lo (renunciei) porque qui-lo (quis renunciar), respondeu o homem da vassourinha.


"Quem lê tem assunto." Li essa frase na Bienal. Você a leu?

Mais
Verbos também desempenham papel vicário. O campeão da turma é o fazer. Num piscar de olhos, lá está ele no lugar de outro. Observe:

A Polícia Federal anunciou que a Operação Lava Jato seria uma bomba. Demorou a abrir o jogo. Quando o fez (= abriu o jogo), surpreendeu gregos e troianos.

Propriedade vocabular é...
Usar a palavra mais adequada ao contexto. É o caso da mudança para o céu. Quarenta dias depois da Páscoa, Jesus voltou pra casa. Sozinho, sem ajuda. O ato milagroso se chama ascensão. O verbo, ascender. Maria seguiu o filho. Mas precisou ser levada. A subida dela às alturas se denomina assunção.

Xô, solidão
O substantivo Páscoa se sentiu solitário. Que tal uma família jeitosa? Oba! Pediu socorro ao sufixo -al. Com ele, formou os adjetivos pascal e pascoal. As duas letrinhas aparecem em montões de adjetivos. Em todos, têm o mesmo significado. Quer dizer relacionado com, pertinente a. Pascal e pascoal são relacionados com a Páscoa (festa pascal, Monte Pascoal). Campal, com campo (batalha campal). Matrimonial, com matrimônio (festa matrimonial). E por aí vai.

Leitor pergunta
Sou repórter de site. O que mais me assusta é a pressa. Morro de medo de escrever palavras incorretas. Na dúvida, recorro a sinônimos. Estou certo?

Mariano Cascais, Itajaí

Certíssimo. A preocupação com a grafia certinha não vem de hoje. Na dúvida, o dicionário quebra o ganho. Mas, sem o paizão por perto, o jeito é encontrar saídas. Uma delas: trocar seis por meia dúzia. A língua é um conjunto de possibilidades. Você as aproveita como o chefe que presenteou os subordinados com ovos de Páscoa. Depois da cotação de preços, fez a compra e pediu à secretária que pagasse a despesa. Eis o diálogo:

-- Faça um cheque de R$ 600.
-- Como se escreve seiscentos?
-- Faça dois cheques de 300.
-- Trezentos se escreve com s ou z?
-- Não sabe escrever 300? Faça quatro cheques de R$ 150.
-- Chefe, o trema foi abolido?
-- Pelo amor de Deus, mande pagar em dinheiro.

Resposta
O trema? A reforma ortográfica deixou a língua órfã das duas asinhas de urubu. Agora o u dos dígrafos gu e qu seguidos de e ou i está livre e solto. Mas nem tudo está perdido. A pronúncia se mantém como se nada tivesse mudado: tranquilo, aguentar, linguística.



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