Rogerio Neiva é juiz do trabalho desde 2002. Além disso, é psicopedagogo e possui pós-graduação em administração financeira. Atua como professor de nível superior e de cursos preparatórios para concursos.
O objetivo deste texto é trabalhar algumas construções e conceitos relacionados às estratégias de realização de provas de concursos públicos. A intenção consiste na descrição do presente processo, principalmente a partir de uma perspectiva cognitiva, bem como sugerir alguns caminhos estratégicos.
Primeiramente, é importante compreender que a prova envolve um processo cognitivo, no qual se exige a mobilização de informações e a realização de raciocínios, para a demonstração do domínio de conceitos e/ou solução de problemas.
Existem diversos critérios para a classificação das provas. Porém considerando o objetivo do texto, quanto ao conteúdo das questões, estas podem ser classificadas em conceituais-conteudistas e operatórias-problema.
As questões conceituais-conteudistas envolvem apenas a solicitação de um conceito, sem exigir raciocínio do candidato. Há uma construção denominada Taxionomia da Bloom, a qual procura classificar as questões quanto ao nível de exigência, sendo que aquele considerado o mais básico trata-se do nível de identificação.
Assim, geralmente as questões puramente conceituais-conteudistas exigem apenas uma atividade intelectual de identificação de conceitos e informações. No caso das matérias jurídicas, muitas vezes se manifestam por meio dos intelectualmente pobres e limitados "copia e cola" dos dispositivos da legislação (constitucional ou infraconstitucional), o que é adotado por muitos examinadores.
Já as questões problema ou operatórias tendem a exigir, em termos intelectuais-cognitivos, um pouco mais do candidato e mesmo do examinador. Assim, é preciso que, mobilizando conceitos apropriados, se encontre a solução de problemas colocados.
Diante destes formatos, no contexto de realização da prova, podemos nos deparar com as seguintes possibilidades de cenários:
1- o candidato teve contato com o conteúdo-objeto da questão (estudou):
1-A - o candidato se lembra da informação relevante para solucionar a questão;
1-B - o candidato não se lembra da informação;
2- o candidato não teve contato com o conteúdo-objeto da questão (não estudou).
Assim, o candidato durante a prova pode se deparar com questões conceituais em relação às quais dispõe da informação solicitada, ou seja, se lembra, podendo também não dispor da informação, o que ocorreria no caso de não se lembrar ou não ter estudado. Também pode encontrar questões operatórias que exigem a mobilização de conteúdos que estão disponíveis (estudou e se lembra) ou não estão disponíveis (ou não estudou ou estudou e não se lembra).
No caso de dispor da informação, esta disponibilidade cognitiva pode ser fruto da mobilização da memória de curto prazo ou de longo prazo. Conforme as construções das neurociências, temos memórias de curto e de longo prazo. A disponibilidade de uma informação enquanto memória de curto prazo depende do caráter recente do contato.
Por este motivo, tenho algumas reservas às colocações de "pseudo-especialistas" em preparação para concursos públicos (sem qualquer título de especialização em algum campo do conhecimento aplicável ao presente objetivo), que sustentam, de forma universalizante e generalizada, que não se deve ter contato com informações e promover qualquer tipo de estudo na véspera ou no dia da prova.
No caso, as informações apropriadas como memória de longo prazo, em tese, já estão consolidadas, ainda que possam ser reforçadas por meio de revisões. Mas aquelas que levamos como memória de curto prazo e utilizamos na prova é lucro. Ou seja, não estudar na véspera ou no dia da prova, significa renunciar o uso deste recurso neuro-cognitivo correspondente à memória de curto prazo.
Mas obviamente que é preciso ter bom senso e estabelecer limites, de modo a não comprometer as condições intelectuais no momento da prova.
De qualquer forma, diante das colocações apresentadas, o fundamental é avaliar o caminho mais estratégico e eficiente para a realização da prova, otimizando o tempo, as energias e o conhecimento disponível.
No caso, numa perspectiva de busca de eficiência e racionalidade neste processo, sugiro o seguinte caminho a ser adotado, em termos de seqüência de questões a serem resolvidas:
1º - questões puramente conceituais-conteudistas, quanto às quais se dispõe da informação(se lembra);
2º - questões operatórias-problema quanto às quais se tem a disponibilidade da informação;
3º - questões operatórias-problema quanto às quais não se tem a disponibilidade do conceito solicitado;
4º - questões conceituais-conteudistas quanto às quais não se tem a disponibilidade da informação solicitada.
No tocante ao terceiro e quarto passos, o candidato pode encontrar a resposta mobilizando outros conceitos disponíveis em sua memória ou mesmo em outras questões, ao longo da realização da prova. Não é incomum que a resposta de uma questão esteja no enunciado de outra, ou ainda que, diante de provas de múltipla escolha, as assertivas descartadas, as quais passam a ser tidas como certas ou erradas (a depender do enunciado da questão), sejam úteis para responder outras questões. Daí porque se deixa para o final.
Ademais, existe a possibilidade de que ao longo da prova alguma informação estudada e não disponível seja recuperada, inclusive pelo fato do candidato estar potencialmente acionando e mobilizando redes neurais correspondentes às informações facilmente disponíveis. Neste sentido, uma técnica útil consiste em, ao invés de insistir na tentativa de evocar o conceito esquecido, lembrar de conceitos disponíveis facilmente e relacionados. Inclusive evitando a alteração do estado emocional.
Vale esclarecer que além da lógica associativa, a memória se sujeita a uma dinâmica bioquímica, sendo que no caso a produção de substancias estressoras é o que menos ajuda.
Outro cuidado importante consiste no envolve a adequada gestão do tempo, o que será tratado em outro texto.
Mas independente da adoção do modelo proposto, o fundamental é que antes da prova já se tenha uma estratégia definida. Mais do que isto, é importante encarar a prova numa perspectiva racional, no sentido de otimizar o tempo e os esforços intelectuais e cognitivos.
Boa prova!
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