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Dicas da Dad

Dad Squarisi é editora de Opinião do jornal Correio Braziliense e comentarista da TV Brasília. Além disso, participa de bancas examinadoras de concursos e tem várias obras publicadas.

dad.squarisi@correioweb.com.br



CORPUS CHRISTI VESTIDO DE CHARME

Os cristãos pensaram grande. Escreveram em latim o nome da celebração que honra o corpo de Jesus na Eucaristia. Não deu outra. Além do caráter religioso, a denominação ganhou toque de charme e algo mais. Na língua dos Césares, o prosaico >corpo de Cristo veste-se de solenidade. Vira Corpus Christi.

Teimosia latina
Expulsaram o latim da escola há meio século. Não adiantou. Teimoso, ele bate à nossa porta sem cerimônia. Na televisão, o ministro afirma que é demissível ad nutum. O jornal diz que o presidente recebeu o título de doutor honoris causa. O advogado jura que vai entrar com pedido de habeas corpus em favor do cliente.

Mais: a placa do restaurante ostenta o conselho carpe diem. O professor pede: "Escreva assim, ipsis litteris". O repórter considera sui generis a reação do candidato. O diplomata foi tratado como persona non grata. Dura lex, sed lex, consola o juiz.

Reverência
Criaturas tão íntimas merecem tratamento respeitoso. A reverência impõe duas condições. Uma: grafá-las como manda a norma culta. A outra: dominar-lhes o significado. Vamos lá?

Demissível ad nutum? É o empregado sem estabilidade que pode ser demitido segundo o humor do patrão -- a qualquer momento.

Quem nos dera! Para ostentar o título de doutor, a maioria dos mortais precisa ralar. Mas pessoas ilustres chegam lá sem exame. Tornam-se doutores honoris causa. Em bom português: doutores pela honra.

A polícia prende o suspeito. Ordem judicial manda soltá-lo. É que o sabido entrou com pedido de habeas corpus. A expressão jurídica, antiga como o rascunho da Bíblia, quer dizer "que tenhas o corpo para apresentá-lo ao tribunal". Na prática, tem duas funções: pôr em liberdade quem estiver ilegalmente preso. A outra: garantir a liberdade de quem estiver ameaçado de perdê-la.

Carpe diem dá o recado curto e grosso: aproveita o dia de hoje. A vida é curta; a morte, certa.

O professor manda o aluno copiar o texto ipsis litteris. Isto é, textualmente -- sem tirar nem pôr.

Ideia sui generis? É isto: ímpar, sem igual.

Embaixadores, conselheiros, secretários sírios são considerados personas non gratas mundo afora. Usadas em linguagem diplomática, as três palavras informam que a pessoa não é bem-aceita por um governo estrangeiro. Deve fazer as malas, bater asas e voar.

Dura lex, sed lex? Está na cara, não? A lei é dura, mas é lei.

Mais uma? Pois não. Em latim, sic é advérbio. Significa assim, desse jeitinho. Vem entre parênteses depois de uma palavra com grafia incorreta, desatualizada ou com sentido inadequado ao contexto. Com ela, damos este recado ao leitor: "O texto original é bem assim, por errado ou estranho que pareça. Não tenho nada com isso". Em suma: o sic deixa a gente dar uma de Pilatos -- lavar as mãos.

Outra? O leitor manda. Mutatis mutandis quer dizer mudando o que deve ser mudado. Usa-se quando se adapta uma citação ao contexto ou às circunstâncias. Em outras palavras: com a devida alteração de pormenores.

Grafia nota 10
Reparou? As expressões latinas não têm acento nem hífen. Se aparecer um ou outro, elas perdem a originalidade. Entram, então, na vala comum dos compostos portugueses. Ganham hífen. Compare: via crucis e via-crúcis.