Rogerio Neiva é juiz do trabalho desde 2002. Além disso, é psicopedagogo e possui pós-graduação em administração financeira. Atua como professor de cursos preparatórios.
Atualmente vem ganhando força a idéia do uso de drogas cognitivas no universo da preparação para concursos públicos. Este uso indiscriminado e indevido de substâncias farmacológicas exige alertas e cuidados, não apenas pela ilusão do resultado que se espera, bem como pelos riscos de graves conseqüências danosas.
A principal droga que tem sido adotada por alguns concurseiros, na busca ilusória do sucesso cognitivo, trata-se do metilfenidato, o qual tem como um dos principais representantes a "ritalina", chamada, de forma aparentemente carinhosa por alguns, simplesmente de "Rita".
A intenção do uso da "Rita" seria "potencializar" funções cognitivas primárias, tais como a atenção e a concentração. Há quem se iluda ainda mais, imaginando que também há repercussões diretas na memória.
Inicialmente, cabe alertar que, efetivamente, estamos diante de uma droga. Conforme o dicionário de Michaelis, droga seria a "designação comum a todas as substâncias ou ingredientes aplicados em tinturaria, química ou farmácia".
Em tese, o metilfenidato consiste em medicamento indicado nos casos de diagnóstico de um distúrbio de aprendizagem denominado Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, também chamado de TDAH.
Diante do uso indiscriminado e sem precedência de diagnóstico adequado, que é o caso de muitos Candidatos a concursos públicos, uma primeira consideração importante envolve os efeitos colaterais e problemas passíveis de ocorrência no futuro. Não apenas conforme a literatura médica, como também de diversos relatos de concurseiros hoje arrependidos, sabe-se que o metilfenidato pode causar problemas como a perda de apetite, insônia, cefaléia, alteração da pressão arterial e da freqüência cardíaca.
No meu blog por exemplo, há relatos emblemáticos de candidatos a concursos públicos que usaram indevidamente a ritalina, tiveram diversos problemas e hoje lutam para neutralizar os efeitos danosos.
Mas além da preocupação com as conseqüências, é preciso avaliar e questionar a eficiência desta estratégia.
Teoricamente, a intenção seria a ampliação da concentração, qual consiste numa função cognitiva primária, envolvendo uma sistemática de seletividade de estímulos. Ou seja, nos concentrarmos nos estudos significa descartamos todos os demais estímulos e pensamentos, elegendo como estímulo-alvo o conhecimento que estamos estudando.
Porém, há limites quanto aos quais não há medicação que mude. Isto é, não se pode negar que 10 horas seguidas de estudos não são o resultado aritmético de 1 hora vezes 10 de estudos.
Vale destacar que o cérebro conta com uma estrutura bio-fisiológica complexa, não funcionando como uma máquina. Ou seja, não se trata de uma questão de trocar a pilha ou colocar uma bateria mais potente, para "turbinarmos" nossas estruturas neurocognitivas.
Além disto, há estudos no sentido de que a intensa atividade intelectual, por um longo período, pode provocar a ação de enzimas que comprometem negativamente a formação de memórias. Segundo pesquisa publicada na Revista Mente&Cérebro, "Quando nos concentramos por muito tempo em uma atividade, sem parar para descansar, há um aumento dos níveis da enzima tirosina fosfatase SHP-2. Ela interfere no armazenamento de informações na memória" (Ano XVIII, no. 220, p. 73).
Ou seja, é preciso questionar a eficiência, em termos de curso-benefício deste recurso.
Naturalmente que foco da presente abordagem consiste no uso sem diagnóstico e irresponsável. Ainda assim, há estudos indicativos de que, para os portadores de TDAH, devidamente diagnosticados, em 25% dos casos o medicamento não produz resultados (ROTTA, Newra Tellechea. Transtorno da atenção: aspectos clínicos. In Transtornos da Aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2006, p. 310).
Por outro lado, o ideal é tentar construir e esgotar estratégias de estudos que contribuam, naturalmente, com o aumento da concentração. Além disto, quanto mais nos mantemos disciplinados nos estudos, também de forma natural, e por diversos motivos e fundamentos de natureza neurocognitiva, tende a ampliar nossa capacidade de concentração.
No entanto, não se pode negar que muitos usuários do metilfenidato, sem diagnóstico, consideram contar com resultados positivos, o que acredito decorrer do famigerado "efeito placebo". Temos a natural capacidade de reagir, inclusive em termos fisiológicos, diante da crença de que determinada substância provoca determinado efeito esperado.
Portanto, ao invés de buscar de ganhos fáceis e ilusórios, a otimização dos estudos deve ser viabilizada por estratégias e atitudes adequadas, principalmente em termos da estruturação do planejamento da preparação e respeito aos nossos limites cognitivos.
A busca de atalhos, ao final, pode levar a desvios para destinos indesejáveis.
Pense nisto!