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Rogerio Neiva

Rogerio Neiva é juiz do trabalho desde 2002. Além disso, é psicopedagogo e possui pós-graduação em administração financeira. Atua como professor de cursos preparatórios.




COMO AUMENTAR A VELOCIDADE DA LEITURA?

Muitos candidatos a concursos públicos vivem angustiados com o tempo demandado para os estudos que se realizam por meio da atividade de leitura. Não são poucos os que a todo momento vivenciam a angústia de achar que não contam com a velocidade de leitura que gostariam.

Assim, quando surge algum "especialista" em preparação para concursos públicos, geralmente sem qualquer especialização (ao menos em termos acadêmicos), apresentando alguma solução ou fórmula mágica que proporcione o milagre do aumento da velocidade de leitura, desprovido de qualquer fundamento científico ou base teórica, muitos candidatos acabam por aderir, sem a devida avaliação crítica, inclusive em função da vulnerabilidade que a mencionada angústia proporciona.

Daí porque, como tudo que envolve a preparação para o concurso público, é preciso contar com a necessária análise crítica, bem como compreender o sentido do processo natural de ampliação da velocidade de leitura. Ou seja, é possível o aumento da velocidade de leitura, de forma natural e gradativa, sem a necessidade de busca de recursos milagrosos, os quais acabam por não proporcionar o resultado que se espera.

É bem verdade que vivemos a era da velocidade, na qual subsiste a pretensão de que tudo seja rápido, fácil, vá direto ao ponto, com poucos ônus e, de preferência, grátis. Não apenas em termos financeiros, mas inclusive em termos cognitivos.

Na preparação para concursos públicos, a angústia relacionada ao tempo e à velocidade de leitura tende a ser ainda maior. Inclusive, no meu caso, mesmo já tendo superado tal etapa, ainda vivo essa angústia. Sempre que estou cumprindo a minha rotina de estudos, até hoje, tenho a sensação de que gostaria de ser mais rápido, para poder consumir intelectualmente mais.

Portanto, é fato que queremos aumentar nossa velocidade de leitura e estudo em geral. Mas para entender o presente fenômeno, precisamos partir da compreensão do processo de leitura.

Conceitualmente, segundo o neuropsicólogo português Vitor da Fonseca, a leitura "%u2026 implica em processar letras que têm categorizações fonológicas específicas para serem decodificadas e compreendidas. De um processo de captação visual, o cérebro tem em seguida de categorizar formas de letra com sons, por meio de processos auditivos complexos a fim de inferir significações cognitivas contidas em palavras que compõe um texto" (Cognição, Neuropsicologia e Aprendizagem. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 153).

Numa abordagem mais ampla, conforme sustenta a professora espanhola e psicóloga educacional Isabel Solé, em obra específica sobre estratégias de leitura, há três modelos para a compreensão do processo de leitura, os quais correspondem ao ascendente (bottom up), descendente (top down) e interativo (Estratégias de Leitura. Porto Alegre: Artmed, 1998, p. 22).

No modelo ascendente ocorre uma decodificação de cada parte do texto, ou seja, letras e palavras, partindo das partes passa-se à compreensão do todo. No modelo descendente as partes e a decodificação perdem importância, diante da preocupação exclusiva com a compreensão do todo. Já no modelo interativo, ostentando caráter misto, existe a preocupação em compreender o todo, sem deixar de ter importância a decodificação.

Vale, porém, salientar que a movimentação dos olhos não tem impacto na velocidade de leitura. Ainda que alguns se iludam com este recurso, inclusive gastando tempo com exercícios de movimento oculares laterais.

Neste sentido, um primeiro esclarecimento a merecer consideração, é de que, na realidade, não lemos com os olhos. A retina apenas capta a imagem. Lemos, na verdade, com uma parte funcional do cérebro chamada córtex do processamento visual. E nesta atividade também há algum envolvimento do córtex auditivo. Tudo isto fica localizado, em termos de estrutura anatômica, no lobo ociptal.

Daí porque alguns neurocientistas afirmam que lemos muito mais com o lobo ocipital do que com os olhos.

Exatamente nesta direção, conforme sustentam os psicólogos cognitivos Michael W. Eysenck e Mark T. Keane, em tratado de psicologia cognitiva, "...temos a impressão de que os nossos olhos se movem suavemente através da página enquanto lemos, mas a impressão é um tanto equivocada...". (Psicologia Cognitiva. : Artes Médicas, p. 272).

A partir destas considerações sobre o processo de leitura, se estabelece a principal ideia sobre o tema da velocidade: quanto mais estudamos e lemos, mais naturalmente aumentamos nossa velocidade de leitura!

Inclusive, um dos fundamentos para esta compreensão consiste no conceito de neuroplasticidade. Segundo este fenômeno, quanto mais demandamos nossas atividades cognitivas e cerebrais, mais temos capacidade de dar respostas.

Ou seja, quem se mantém empenhado e disciplinado nos estudos, naturalmente, aumentará cada vez mais a velocidade de leitura. Isto inclusive em termos neurofisiológicos.

Por outro lado, quanto mais estudamos, mais aumentamos o universo de informações intelectualmente apropriadas e o nosso universo semântico, o que tende a facilitar a apropriação de novas informações relacionadas. Trata-se do que venho chamando de fenômeno da "Aprendizagem em PG" (progressão geométrica). E fundamentos para isto existem de sobra.

Basta pensar no modelo da aprendizagem segundo Jean Piaget, para quem este processo ocorre por meio da assimilação (checagem da relação entre o conhecimento novo e o já disponível) e da acomodação (apropriação do novo). Assim, quanto mais nos apropriamos de novas informações e conhecimentos, mais se amplia a nossa base para a assimilação. E mais, naturalmente, tende a aumentar a nossa velocidade de leitura.

Portanto, esta pretendida condição tende a aparecer de forma natural. Além disto, é importante tentar controlar e neutralizar o compreensível desespero com o aumento da velocidade de leitura e cognição. Porém, sem deixar de ter disciplina.