Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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Forma e conteúdo

08/06/2017 13:36

William Douglas

É melhor lidar com as dificuldades do concurso do que com o que acontece na falta deles. Desde que se estabeleceram concursos públicos, as pessoas passaram a não mais serem escolhidas por compadrio, parentesco ou aparelhamento político, mas por seu conhecimento, sua capacidade de aprender e transmitir conhecimentos. Não se pode dizer que o mundo dos concursos é isento de mazelas, mas elas não se comparam às que se propagam na ausência de um sistema de seleção forte. Nesse sentido, é importante que ensinemos pessoas de bem a passar, antes de permitirmos que os cargos sejam ocupados por quem não estuda.


Dito isso, admiro os alunos de cursos preparatórios. Em sua maioria não são auxiliados por bolsas, favorecidos por parentescos, ou estão licenciados de seus trabalhos estáveis, ao contrário, são pessoas que estudam à noite, após o trabalho e antes de chegarem em casa para cuidar dos afazeres domésticos e dar atenção à família. São pessoas que estão se sacrificando e, por isso, merecem o esforço dos professores. Não importa se este esforço vier em forma de macete, de música ou de uma roupa diferente, o que importa é que a informação seja transmitida e fixada. Sendo um método honesto, qualquer que seja, se resultar em aprovação e na melhoria de vida daquele indivíduo, é válido.

No ramo dos concursos, não existe estabilidade para professores uma vez que aquele que não tem uma boa didática e não se conecta com os alunos, não vai permanecer muito tempo nas salas de aula. Isso acontece porque vivemos de resultados práticos e imediatos. A aferição de sua qualidade não é feita por suas publicações, por sua pesquisa, mas pelas aprovações que possibilita. Não critico a forma e as exigências da academia, as considero justas dentro de seu espaço. Há no mundo espaço para as mais variadas belezas. A academia é bela, mas o cursinho também. Cada um com sua forma, cada um no seu lugar e cumprindo o seu papel.

Como disse o Professor Marcelo Hugo da Rocha sobre o tema, no artigo Esquematizado, sistematizado, descomplicado e outras simpatias: “não é nosso objetivo julgar como são realizadas as provas e exames, [...] elas estão aí selecionando candidatos para o bem ou para o mal e ninguém ficará eternamente se preparando com a leitura de notas de rodapé, citações em alemão, francês e italiano. [... ] o propósito do mercado editorial preparatório foi atender a uma parcela que precisava otimizar seu tempo, calibrar o seu foco, o suficiente para alcançar o objetivo final: a aprovação.”

O Professor Luís Roberto Barroso (em palestra na UERJ, ainda antes de se tornar Ministro do STF), ao falar sobre o ensino jurídico, foi indagado sobre o sistema de concursos públicos. Na ocasião, afirmou que apesar de os manuais e livros da área diminuírem a complexidade do Direito e a sua erudição, eles cumprem um importante papel social já que possibilitam a ascensão de pessoas que não teriam como conseguir sem eles. Afirmou, ainda, que há espaço para a indústria dos concursos e que ela é importante para a democratização do ensino jurídico. Uma visão que vai na contramão daqueles que prefeririam que o Direito fosse reservado a uma pequena parcela da população, algo inalcançável.

O mestre Agostinho da Silva disse, com propriedade, que “o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vender, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor – eis todo o seu programa.”

Em outras palavras, podemos e devemos buscar melhorar o sistema, mas quando somos professores, o que precisamos fazer é ajudar nossos alunos e, por isso, reforço minha admiração pelos cursos preparatórios e por seus estudantes, Concurseiros que almejam melhores condições de vida por meio do estudo e da preparação. Se você está se preparando e tem a possibilidade de frequentar um curso, não perca essa oportunidade de experimentar uma nova forma para o seu conteúdo.

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