Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

publicidade

Concurseiros movimentam R$ 50 bilhões ao ano por vaga no emprego público

Para a maioria, "ganhar bem, sem trabalhar muito", além da estabilidade, são os grandes incentivos à manutenção do foco no estudo

13/10/2014 09:34 | Atualização: 14/10/2014 11:59

Diego Amorim

Na entrada da maior escola preparatória para concursos públicos de Brasília, panfletos empilhados sobre o balcão convidam os alunos para uma palestra sobre Vida de concurseiro: o equilíbrio emocional em suas mãos. Para quem sonha em trabalhar para o Estado, manter os estudos e a saúde em dia é tão desafiante quanto acompanhar o lançamento de editais, os índices de concorrência e as disciplinas exigidas em cada seleção.

Seduzidos pela promessa de uma vida tranquila após a aprovação, mais de 10 milhões de brasileiros abriram mão de carreiras, família, amigos e tantas outras coisas, para se dedicar única e exclusivamente a decorar fórmulas, leis, conceitos, além de aprender macetes em aulas, vídeos e apostilas. Querem porque querem a estabilidade, a palavra mais venerada nos cursinhos, onde o significado atribuído a ela é o de “algo que faz você ganhar bem, sem trabalhar muito”.

Em um país em recessão técnica, com a economia crescendo pouco e o nível de emprego estagnado, a proposta de bater cartão em órgãos públicos se torna ainda mais tentadora. O mercado que inclui cursinhos, livros didáticos e realização das provas movimenta no Brasil algo em torno de R$ 50 bilhões por ano, segundo a Associação Nacional de Proteção e Apoio aos Concursos (Anpac). Boa parte desses recursos circula em Brasília, a capital dos concurseiros.

A rotina dos aspirantes a servidores — em sua maioria, jovens — não costuma variar muito: acordam cedo, estudam, fazem rápidas pausas e retomam os estudos. É assim até a hora de dormir. Apesar das recomendações, não são todos os que encontram tempo e disposição para se exercitar ou fazer algo alheio ao universo dos concursos. Acabam se distanciando das notícias e, nos poucos momentos de conversa, a pauta quase sempre são as provas.

Marina Lopes tem 22 anos. Cursou artes cênicas em Goiânia, de onde, há um mês, saiu rumo a Brasília para “arrochar nos estudos” e ser a primeira funcionária pública da família. “Não é fácil. Quando me sento em um barzinho, parece que estou fazendo algo errado”, desabafa ela, com “saudade da balada e da pescaria”. Foi no meio do curso, concluído sem muita empolgação, que ela ouviu dizer que o funcionalismo oferecia “um futuro mais certo”.

Concentrada na missão de virar delegada ambiental da Polícia Federal, Marina não se acanha em assumir o principal motivo que a empurrou para a vida de concurseira. “Quero trabalhar menos e ganhar mais: é isso. Se não disser que é isso, estarei mentindo”, diz a estudante, apossando-se de um discurso uníssono nos cursinhos.

Entre os obcecados por cargo público, é comum encontrar recém-saídos do ensino médio ou quem tenha transformado o diploma de curso superior um mero detalhe. “Se fosse hoje, não teria feito quatro anos de graduação. Perdi tempo e não vou aproveitar nada”, comenta Bruno Mesquita, 22 anos, formado em gestão ambiental. Todos os dias, o jovem diz sonhar com o nome dele publicado no Diário Oficial da União.

Como a maioria dos concurseiros, Bruno sustenta que “o certo é passar em concurso”. “Sucesso é ter estabilidade financeira, não trabalhar feito um doido, e ter tempo para descansar e aproveitar a vida”, elenca o estudante.

Kaick Neres, 22, só encontra a namorada dois dias por semana, a mesma quantidade de vezes que dorme em casa. Aficionado do funcionalismo, ele se divide entre a vida de concurseiro e a de vigilante, que lhe garante o dinheiro para estudar. Quando passa a madrugada de plantão, o cochilo sobre as apostilas na biblioteca após o almoço do dia seguinte é inevitável. O que estimula tanto sacrifício? “Já trabalhei igual a um escravo em farmácia e em lojas. Não quero isso para minha vida”, responde.

Planos
Na família, Kaick tem exemplos de servidores e de trabalhadores da iniciativa privada. “Para escolher meu caminho, levei em consideração a estabilidade”, conta ele, que planeja, antes de qualquer coisa, passar em concurso. “Depois, vou pensar em fazer faculdade de direito ou mesmo montar meu próprio negócio. Mas, primeiro, a segurança”, insiste o jovem.

De casamento marcado com um servidor público, Camila Rocha, 29, não desvia o pensamento dos três concursos que colocou na mira. “A vida social acabou. A única coisa que faço é estudar”, diz ela, que há três anos não vai ao cinema nem viaja. Para não perder o foco, afastou-se dos amigos e até da família. “Estou pensando em um futuro melhor. Já imaginou trabalhar somente seis horas?”, comenta a jovem, que pede para a conversa não demorar. “Tenho que voltar a estudar, pelo amor de Deus.”

Há oito meses longe da família, que ficou no interior de Rondônia, Keity Mara Vieira, 23, não esconde a dificuldade em lidar com a distância. “Não tem como falar em concurseiro sem choro, sem desespero. Mas a vontade de passar é maior do que os conflitos internos”, desabafa ela, que optou por mudar de cidade porque “aqui se respira concurso público”.

A avó de Keity trabalhou como funcionária da União na época em que Rondônia ainda era território federal. Os netos cresceram ouvindo dela sobre a importância da tal estabilidade. Keity pensa nisso quando acorda, todos os dias, às 5h40 para iniciar uma maratona de estudos que só termina perto das 22h, de olho em uma vaga para o cargo de auditor fiscal do Ministério do Trabalho.


Análise da notícia

Motivo errado


Não há mal algum — nem deveria — em desejar um emprego sem carga horária exaustiva e com um salário digno para manter, com poucos atropelos, as contas em dia e o bem-estar dos dependentes. O pensamento de encarar o serviço público como um ambiente em que tão-somente “se ganha mais e se trabalha menos”, porém, leva, por si só, milhares de jovens a trabalharem para o Estado sem terem a real dimensão do funcionalismo. A fixação na estabilidade, assumida pelos concurseiros, estimula a intensa e prejudicial rotatividade nos órgãos públicos e, em última instância, prejudica a gestão pública e a prestação de serviços à sociedade, já maltratadas por outros problemas crônicos como a burocracia. (DA)


PESQUISA DE CONCURSOS