Concurso, CorreioWeb, Brasília, DF

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300 oportunidades para a Abin, um concurso público diferentão

Especialista dá dicas para quem se propuser a ser "agente secreto" da Agência Brasileira de Inteligência

11/01/2018 13:37 | Atualização: 12/01/2018 18:37

Lorena Pacheco

AFP / SAUL LOEB
Uma olhadela no edital de abertura da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) é suficiente para os concurseiros perceberem que não se trata de um concurso público comum. Desde os requisitos dos cargos até a matéria exclusiva de atividade de inteligência e legislação correlata, dá para presumir que a seleção demanda preparação única e, principalmente, vocação.


É o que afirma o especialista em inteligência e professor de legislação específica da Abin do Gran Cursos Online, Heron Duarte. Segundo ele, apesar do edital já ter sido anunciado há um bom tempo (a autorização do Planejamento saiu em julho do ano passado), as especificidades do órgão não permitem que haja muita discrepância entre os níveis de conhecimento dos concorrentes, em termos de matérias específicas exclusivas.

“A legislação é única, quem estudou para outros concursos não estudou nada nessa parte. A Abin é muito peculiar e sua legislação sofre constantes alterações, muitas delas bem recentes, o que deixa os candidatos um pouco atrapalhados - a ex-presidente Dilma nos últimos meses de seu mandato e o presidente Temer fizeram mudanças siginificativas. Assim, quem está chegando agora não está muito atrás. 40% da prova é política nacional de inteligência e estratégia nacional de inteligência que têm menos de três meses em vigor. Ou seja, os candidatos estão partindo do mesmo ponto,” alerta Duarte.

Dicas valiosas

O especialista recomenda atenção especial ao Decreto 4.376, que sofreu muitas modificações e pode ser chamado de “a grande legislação”, já que tudo encontra fundamento nele; assim como atenção à Lei 9.883, que é a legislação principal.

Duarte frisa uma polêmica sobre a Lei de Acesso à Informação, que foi regulamentada pelo Decreto 7.724. O decreto entrou em conflito com a lei em alguns pontos (como a delegação dos documentos ultrassecretos), por isso ele não é mais cobrado nos últimos concursos. “A lei é maior que o decreto. É importante lembrar disso porque muitos professores de arquivologia ensinam o decreto e o candidato pode confundir”.

Outra possível confusão é com relação ao pertencimento da Abin, que tinha saído do âmbito do Gabinete de Segurança Nacional e foi para Secretaria de Governo no mandado de Dilma, mas o presidente Temer trouxe a agência de volta ao Gabinete de Segurança Nacional da Presidência. O aluno também não pode deixar de estudar o Conselho Consultivo, que foi alvo de muitas alterações nos últimos meses. Ele também voltou para o Gabinete. “A Abin é subordinada ao Gabinete de Segurança Nacional da Presidência da República e o Conselho Consultivo hoje é vinculado ao mesmo gabinete”.

Agora, sobre o posto de oficial de inteligência, o “agente secreto”, que oferece a maioria das vagas do concurso (220) e pode ser disputado por quem tem nível superior em qualquer área de formação, o especialista alerta para a expressão “desarmamento” que consta no edital. “Muitos já me procuraram achando que se trata do Estatuto do Desarmamento, mas não é isso, o edital se refere ao desarmamento internacional, de armas de destruição nuclear.” pontua. “O edital trouxe ainda mais um item importante, que é a lei sobre a faixa de fronteira. É preciso cuidado, pois a legislação fala sobre autorização do Conselho de Segurança Nacional, mas esse conselho foi esvaziado após a criação do Conselho de Defesa Nacional, que assumiu as atribuições no que tange a faixa de fronteira (mas, no site da Presidência está como antes, não foi extinto).

Provas discursivas

Sobre a prova discursiva, Duarte destaca que as maiores preocupações da Abin hoje são temas globais, que são consenso nas agencias de inteligência do mundo, como narcotráfico, tráfico de armas e de seres humanos e terrorismo no âmbito internacional. Já na esfera nacional, a Abin tem se preocupado com o desmatamento ilegal ao longo da fronteira terrestre brasileira e com a biopirataria (exploração, manipulação, exportação e/ou comercialização internacional de recursos biológicos não previstos na Convenção sobre Diversidade Biológica, de 1992). “A Abin tem atuado na prevenção de ameaças terroristas nos grandes eventos, como ocorreu na Copa do mundo, nos jogos olímpicos e panamericanos, várias tentativas terroristas foram anuladas pela Abin e a sociedade não sabe. Essa é a diferença entre o trabalho da Polícia Federal e a Abin, que não pode divulgar sua atuação. Mas é importante que a sociedade saiba que apesar das ações não serem expostas, elas são feitas.”

Nesse contexto, outro tema que pode ser abordado é a ética, que é muito cobrada pela agência. “A própria legislação da Abin diz que ser ético é mais importante para a Agência do que ter grande conhecimento cientifico.”

É bom lembrar que para oficial de inteligência serão cobrados conhecimentos em inglês e espanhol, enquanto para os outros cargos apenas uma língua estrangeira será cobrada.

“A Abin é uma missão. O candidato que se inscrever por conta do salário e não tiver perfil para o órgão não vai conseguir trabalhar. Concurseiro não dura na Abin. O perfil é de quem gosta de sigilo, discrição e respeito à ordem, porque a hierarquia lá é forte.”

Heron Duarte, especialista em inteligência


Fases diferentonas

Quem quer ser agente secreto tem que contar com habilidades especiais, únicas, como esse concurso público. Para começar, quem não tem controle emocional não é indicado para a Abin. O edital determina expressamente que os candidatos têm que ter controle emocional como requisito para os cargos. Além disso, é preciso gozar de quatro tipos de atenção: atenção concentrada/sustentada, que é basicamente quando focamos em um só objeto, mas com capacidade de manter esse foco de forma contínua e repetitiva; e a atenção difusa/dividida, que é a capacidade de focar, de uma só vez, diversos estímulos dispersos e estabelecer conexão entre eles (bem filme policial, hein?). A persistência também é requisitada, assim como a empatia, que é a faculdade psicológica de compreender emocionalmente o outro, projetando a personalidade dele, para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso você estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Quem é muito impulsivo, agressivo ou ansioso pode não ser aprovado.

A investigação social e funcional também é bastante rigorosa. Segundo Duarte, a Abin pode ouvir qualquer pessoa acerca da vida do candidato. Pode ir ao antigo trabalho dele, na escola que frequentou quando adolescente e conversar com os professores, fazer uma visita aos vizinhos. E atenção: investigar seus posts e interações nas redes sociais. “Embriaguez é fator para tirar o cara do páreo. Então é bom não publicar fotos com copos de bebidas alcoólicas na mão. Não pode fazer apologia à violência, nem sustentar discurso de ódio, muito menos ser favorável à ditadura.” E o especialista enfatiza, “os aprovados não podem postar em rede social que foram aprovados. Muitos que trabalham lá não dizem nem para familiares que são funcionários da Abin. O próprio órgão não disponibiliza nem os nomes dos candidatos inscritos no concurso, apenas o número do cadastro. O profissional da Abin tem que ser discreto.”

O concorrente também deve ter consciência de que o exame toxicológico vai cobrir 180 dias, e que a Abin pode requisitar novos exames surpresa, no decorrer do concurso, se assim achar necessário.

Sobre o curso de formação, o professor afirma que é “puxado”. “À princípio, são oito horas diárias para oficial de inteligência, durante 8 a 16 a semanas, dependendo da carga horária. Tem prova durante e ao final do curso e o limite de falta é de 15% (incluindo as faltas justificadas, ou seja, mesmo com atestado médico) - muito diferente dos cursos de formação mais comuns que têm limite de 25%. Assim, há muita desistência no curso (cerca de 30%), porque não se adaptam ou pisam na bola. Tem até um caso famoso de um aluno que encheu a cara durante o curso, foi dirigir e acabou sendo eliminado. Você é muito observado durante a formação.”

Vale lembrar que o concurso ainda vai aplicar testes físicos para agentes e oficiais de inteligência.

Inscrições abertas

Quer saber mais detalhes sobre o concurso da Abin, veja em: Abin abre concurso com 300 vagas e salários de até R$ 16 mil para Brasília

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